DUAS CRÔNICAS DE DOC COMPARATO

(Rio de Janeiro, 1952) é um escritor de telenovelas, minisséries e seriados de televisão e roteirista de cinema brasileiro.  Foi um dos fundadores do Centro de Criação da Rede Globo, atuando como roteirista de séries como Mulher (1998), O tempo e o vento (1985), A justiceira (1997), e Lampião e Maria Bonita (1982), a primeira série latino-americana a receber a Medalha de Ouro do Festival de Cinema e Televisão de Nova Iorque.

(Rio de Janeiro, 1952) é um escritor de telenovelas, minisséries e seriados de televisão e roteirista de cinema brasileiro. Foi um dos fundadores do Centro de Criação da Rede Globo, atuando como roteirista de séries como Mulher (1998), O tempo e o vento (1985), A justiceira (1997), e Lampião e Maria Bonita (1982), a primeira série latino-americana a receber a Medalha de Ouro do Festival de Cinema e Televisão de Nova Iorque.

VERÃO TIJUCANO


__ QUEM FALOU que na Tijuca não tem praia?! (disse ele, tijucano doente.)

__ Eu (disse eu, sabendo que ele estava abusando da geografia).

__ Ah! Você não entende nada de Tijuca, meu velho. E a Barra da Tijuca? (disse ele apelando).

__ Espera aí, companheiro. Barra da Tijuca é outro bairro, ou não é? (disse eu, convicto de que estava conversando com um bairrista.)

__ Engano seu! A Tijuca vai do Largo da Segunda-Feira ao Recreio dos Bandeirantes (disse ele, no mínimo, megalomaníaco).

__ O quê? (disse eu, estarrecido).

__ Quer dizer, no princípio da Tijuca não é? A Tijuca cresceu tanto que foi dividida em Tijuca e Barra. Agora, no princípio, nós tínhamos mar (disse ele, na maior desfaçatez).

__ Princípio de quê, companheiro? A Tijuca nunca teve mar nenhum, só se você regredir até a era glacial! (disse eu, estupefato.)

__ Não interessa. Que seja! No princípio a Tijuca tinha mar, mas depois acabou optando pelas montanhas, chácaras, aristocracia e o verde (disse ele, delirando).

__ Verde! Onde? A Tijuca não tem mar, nem verde. A última árvore da Saenz Pena caiu no metrô. Vocês têm é cimento e sofrem fundo com o verão (disse eu, discursivo).

__ Vê lá como fala, rapaz! A Tijuca tem praças maravilhosas e clubes impecáveis, entendeu? (disse ele, me odiando).

__ “Querias”. Tinha. O América virou paliteiro do Sérgio Dourado, as praças sucumbiram metrô adentro, o Tijuca Tênis Clube ficou tão caro, que se paga mais luvas para ser sócio e sim ternos, e o Vila Isabel… (dizia eu, até ser interrompido).

__ O Vila? Vila Isabel é outro bairro. É Zona Norte! (disse ele, cheio de preconceitos).

__ Como? (disse eu, como se minha bússola tivesse enlouquecido).

__ A Tijuca não é nem Zona Sul, nem Norte. É Tijuca! (disse ele, como se morasse no Principado de Mônaco).

__ Concordo, concordo! Como concluiu o Aldir Blanc, “Tijuca não é estado-de-espírito não; é estado-de-sítio mesmo” (disse eu, com ar blasé).

__ O Aldir Blanc é tão traidor como você. Ambos foram tijucanos e agora cospem no prato que comeram (disse ele, fulminante).

__ Ninguém é traidor de nada não. Somos, sim, realistas. A gente simplesmente torce para o tijucano ficar mais carioca e menos mineiro. E que o Otto Lara Resende me desculpe! (disse eu, desabafando).

__ Você acha mesmo a gente parecido com os mineiros? (disse ele recuando).

__ Acho. Afinal de contas, aqui não tem mar, igual a Minas. E se não fosse o túnel, vocês não tinham como se refrescar no verão! (disse eu, nos finalmente).

__ O quê? A gente não é parecido com ninguém, não. Em primeiro lugar, aqui não tem Francelino nenhum; e em segundo, se não fosse o túnel a gente continuaria a se refrescar como sempre fez – à mangueira (terminou ele, bem tijucano ou mineiro).

O HOMEM QUE PERDEU O HUMOR


UMA ESTRANHA DOENÇA acometeu Sérgio durante a noite – ele perdeu o humor.

Acordou e não ouviu o passarinho cantar, não deu bom-dia para o belo dia, não futucou sua companheira e nem flutuou pelas ondas de preguiça que invadem nosso acordar. Acordou aborrecido. Por quê?

Depois deixou queimar as torradas na torradeira, tropeçou no fio do telefone, esbarrou em dois vasos, tomou café sem açúcar, deu um pontapé no gato Chuá e saiu. Deixou-se levar pela vida sem sentir. Com ódio.

No ônibus sentiu-se mal. Brigou com o trocador, empurrou uma velhinha e não captou a atividade da cidade que corria macia através dos vidros do coletivo. Não olhou para o mar, suas ondas e cores. Sem saber porque, errou em todos os relatórios pelo menos três vezes, esqueceu de bater o ponto e ainda, malfadado dia, se envolveu numa sinistra discussão com o chefe. Foi despedido.

Na tarde sol não fez. E sim chuva fina, tipo inglesa, é óbvio, Sérgio escorregou no meio-fio. Praquejou. Reclamou do azar, do movimento de do mundo. Não notou sua própria doença. E pelo tombo, passou a capengar dentro do terno rasgado.

O pôr-do-sol aconteceu em vermelho, lilás, azul e roxo. Também em tom de amarelo. Mas ele estava brigado com a natureza e assim ficou. Um arco-íris rasgou o céu antes do anoitecer.

Em casa não deu uma palavra. Descobriu que a TV estava quebrada, que tinha fígado para o jantar (ele detestava fígado) e que a cerveja estava choca. Acabou cochilando após o enjoado jantar, com uma mosca inquieta zunindo sobre sua cabeça. Teve pesadelos.

No dormir não se pensa? Mentira ou verdade? Sei lá!? Só sei que Sérgio num dormir-pensar, numa modorra zunida, achou a fonte dos seus males. Qual? Um uísque nacional, desgraçado, tragado aos litros na noite passada entre risadas e brindes numa festa de batizado. O caso de Sérgio era ressaca pura. Das brabas.

No dia seguinte Sérgio recuperou o humor, emprego e felicidade. Recuperou o amor.

MORAL A ESCOLHER – Ressaca faz mal ao humor, que faz mal ao amor, (ou) Não beba em festa de batizado que Deus do Céu castiga. (ou) Uísque nacional é fogo! (ou) O fígado faz mal à bebida (frase de Millôr).

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