O Perfeito Cozinheiro…

Diário coletivo da garçonnière de OSWALD  DE  ANDRADE

São Paulo – 1918  ( 1ª Parte)

por João Batista do Lago e Tonicato Miranda

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Com muitas dúvidas – eis o mais intrigante livro publicado em língua portuguesa no Brasil.

Um livro de receitas de amores ao redor de uma personagem central? Um diário construído de forma anárquica ou sem pé nem cabeça? Um projeto de romance? Crônicas soltas e imagens? Palavras e fatos na frente e atrás das cortinas da Paulicéia Desvairada do outro Andrade? Loucuras antecipadas de João Miramar, de nome João? Sim, tudo isto e muito mais e + e + com cruzes de mortes e vida de um dos precursores da poesia moderna e do concretismo informal na língua portuguesa brasileira.

Trazemos para o deleite do leitor do “blog charles mallarmè” os primeiros rudimentos de um livro esquecido do Brasil, de um autor para o qual sua vanguarda ainda não foi consumida nem totalmente digerida. Neste País ainda Macunaímico; neste País ainda meio índio/meio autofágico, meio floresta/meio asfaltoselvagem, meio urbanóide/meio ruralista, meio crédulo/meio cético; neste País meio feijão-e-bife/meio caviar com caipirinha, meio carnívoro/muito pouco peixe, deixe pulsar os siris e caranguejos de João Miramar nas páginas da imaginação e nas praias dos devotos e dos descrentes, onde Iemanjá foi Pagu, onde Cyclone foi Deisi.

Para não mais nos estendermos e deixar de tantos canapés para irmos ao prato principal, resolvemos transcrever aqui alguns fragmentos da Introdução do Livro editado pela Editora Ex Libris, da edição de 1987, de autoria de Mário da Silva Brito.

É preciso estar claro que não a reproduziremos por inteiro, porque além de ser fastidiosa a leitura, faria do intróito ato superior à própria obra. Neste sentido, apresentamos neste momento a seguir fragmentos da Introdução e algumas páginas em fac-símile, do diário, acompanhadas de suas versões ou transcrições – mais fiel possível à edição de 1918, portanto 90 anos atrás.

Em 28 de Fevereiro voltaremos com mais um pouco da Introdução e mais cozimento de almas de Oswald. Por enquanto, vamos curtir um pouco do poeta genial e da sua intrigante obra.

 

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“O PERFEITO COZINHEIRO DAS ALMAS DESTE MUNDO”

por MÁRIO DA SILVA BRITO

 

“De 30 de maio a 12 de setembro de 1918, Oswald compõe, com amigos, O Perfeito Cozinheiro da Almas deste Mundo… Trata-se de um grande caderno de 200 páginas, medindo trinta e três centímetros de altura por vinte e quatro de largura, que se transforma num diário dos freqüentadores da garçonnière, provida de fonola e alguns discos, que Oswald mantém a Rua Líbero Badaró, 67, 3º andar, sala 2.

No enorme caderno, escrito a tinta roxa, verde e vermelha, ou a lápis às vezes, há de tudo: pensamentos, trocadilhos (inúmeros), reflexões, paradoxos, pilhérias com os habitués do retiro, alusões à marcha da guerra, a fatos recentes da cidade, a autores, livros e leituras, às músicas ouvidas (das eruditas às composições populares americanas), a peças em representação nos palcos de São Paulo, às companhias francesas em tournée pelo Brasil. Há mais porém: há colagens, grampinhos de cabelo, pentes, manchas de batom, um poema pré-concreto de Oswald, feito com tipos de carimbo, cartas de amigos grudadas em suas páginas…”

“A idéia do álbum partiu de Pedro Rodrigues de Almeida, literato raté que acabou delegado de carreira, espírito perfeito de académicien escrevendo o médio do bom gosto. Sob o pseudônimo de João de Barros é ele quem abre o caderno, onde diz: “Muito de arte entrará nestes temperos, arte e paradoxo que fraternalmente se misturarão para formar, no ambiente colorido e musical deste retiro, o cardápio perfeito para o banquete da vida”.

“Os colaboradores não se utilizam de seus nomes. Valem-se de pseudônimos ou apelidos. Sabe-se que frequentaram a garçonnière, entre outros, Monteiro Lobato (que lá um dia, esqueceu as provas de Urupês), Menotti del Picchia, Léo Vaz, Guilherme de Almeida, Ignácio da Costa Ferreira, Edmundo Amaral, Sarti Prado e Vicente Rao.”

“A figura dominante do Perfeito Cozinheiro é Deisi – novo amor de Oswald, misteriosa mulher com que depara ao sair de momentos sentimentais turbulentos, mulher que exerce grande fascínio não só sobre o jovem jornalista mas também sobre todos os que o rodeiam e fazem ponto na sua garçonnière. Há uma espécie de secreta paixão coletiva por Deisi, que é amante de oswald. “Todos declaram que amavam a Ciclone” – escreve ele.”

(fim da 1ª Parte da Introdução)

O  Perfeito  Cozinheiro…

(a seguir páginas do Cozinheiro em edição fac-símile) clique sobre as fotos para ampliá-las:

8 Comments

  1. BrasilBrasileiro
    Posted 3 fevereiro, 2009 at 9:01 am | Permalink

    Matéria recuperada da Internet (I)

    “Já fazia uns bons três meses que eu não vendia qualquer trabalho, que não aparecia nenhum freela, que a grana ia minguando.
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    Como dentro de quinze dias eu ia começar a dar aula, resolvi dar um rasante nuns sebos do centro para ver se achava alguma coisa para mostrar para os alunos, como referência. Depois de uma tarde inteira fuçando, já na saída daquele sebo da João Mendes que invariavelmente tem sempre uma puta em cada lado da porta (devem ser cariátides, frescura de arquiteto neoclássico), meu olhar foi puxado por uma força oswaldiana além-mundo e, na vitrine de vidro, num canto, vi a edição fac-similar d’ O Perfeito Cozinheiro das Almas Deste Mundo.
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    Nem cheguei a sonhar com ele nesta noite porque provavelmente era tão caro, mas tão caro, mas tããããão caro, que automaticamente deletei a possibilidade deste livro da minha vida. Tão fácil e natural de ser deletada quanto deletar a possibilidade de ir passar uma semana no verão mediterrâneo para curar um dia depressivo em que pisei num chiclete.
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    Na manhã seguinte, a Marina me ligou da galeria dizendo que (depois de um jejum grande) tinham sido vendidos dois trabalhos meus e, um deles, pago em dindin, que seria depositado naquele mesmo dia na minha conta.
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    Oswald mexendo pauzinhos.
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    -Quanto é?- perguntei ao livreiro.
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    -Mil, mas faço por novecentos e cinquenta (odeio esse tipo de estratégia retórico-mercantil).
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    -Posso ver?
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    Quando comecei a folhear o livro, percebi que ele era meu e que a vida, a partir daquele momento, seria 3,9% mais difícil se eu não o tivesse ao meu lado, para o resto dos meus dias. Lindo. Lúdico. Histórico. Tocante. Um exemplo raro de fac-símile: realmente parece que você está folheando o original do diário coletivo da garçonnière (ou seria puteiro?) do Oswald de Andrade.
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    -Novecentos?
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    -Novecentos e vinte.
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    -Novecentos, vai…
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    -Tá bom.
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    -Cara, sei que o livro é raro, é sempre caro, mas sou um pobre professor e, o que é mais dramático, artista e blá, blá, blá, blá… oitocentos e cinquenta…
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    -Oitocentos e oitenta e não se fala mais nisso.
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    A negociação foi longa e puramente matemática. Eu pensava no quanto era difícil ganhar oitocentos mangos por aí, pensava no terceiro mundo (ainda se usa esse termo?), na fome, nos mendigos, nas putas cariátides, nas crianças sem leite Ninho, na África e em mim quebrando o Douglas, que era meu porco-cofrinho de louça nesta ocasião (que seria engordado pelo depósito que a galeria faria na minha conta) e torrando essa montanha de dinheiro num livro! Mas aí eu dizia pra mim mesmo: o dinheiro é meu, ganhei honestamente, não tenho culpa das mazelas do mundo, tem gente que torra grana em calça da Diesel, em cocaína, em filhos, em jogo de futebol, em abadá e show da Ivete Sangalo (eca!), em vídeo game, na Disneylândia, em Guerra no Iraque, em prestação de automóvel, em lipo-aspiração, em três diferentes aparelhos celulares por ano e… foda-se: setecentos! Vai cara, setecentos! Vou pagar a vista, cartão de débito.
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    Abrir este livro, sobre a minha cama, me dá um aperto. Aí leio, de cabo a rabo, os recados e cartas trocados entre a Miss Cyclone e o Oswald. Sempre rola uma lágrima. É uma das grandes obras-primas da literatura. Sem ser literatura. Romeu e Julieta? Fichinha…. E a vida ficou 4.1% mais suportável.”
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    Fonte: http://moraisfabio.blogspot.com/2009/01/o-perfeito-cozinheiro-das-almas-deste.html

  2. BrasilBrasileiro
    Posted 3 fevereiro, 2009 at 9:04 am | Permalink

    Matéria recuperada da Internet (II)

    “Almas cariocas cozidas na Paulista

    Que tristeza me dá quando acesso o Google (nosso totem contemporâneo) e vejo que ninguém falou ainda da peça sobre que devo falar. É necessário confessar, tenho tido muita sorte com os espetáculos que ando vendo em São Paulo. Cada vez faz mais sentido elaborar um comentário sobre cada pedaço desse movimento de (pra dizer pouco) “fazer teatral muito diverso” que está acontecendo na nossa cidade.

    A pérola de hoje é O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo, em cartaz no Sesc Paulista (sempre o Sesc) até o dia 24 de junho. E como foi longe esse pessoal. Ao procurar pelo título, facilmente se encontra a referência a Oswald de Andrade e fácil também seria fazer uma montagem naturalista sobre aquele grupo de 22. Foi o caso de Tarsila, que esteve em cartaz no Sesc Consolação há cerca de dois anos, e que não saía de uma mitificação bastante ufanista dos quatro ébrios da semana de 22 (Mário e Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e Anita Malfatti). Essa nova montagem faz questão de voltar quatro anos antes, em 1918, para contar uma história de amores no melhor estilo Wong Kar-Wai de idas e vindas temporais.

    O Perfeito Cozinheiro nos recebe com uma cenografia inacreditável para aquele prédio que está dito pra ser o núcleo “provisório” na Av. Paulista do Sesc. A princípio se espera algo que nos faça pular das pequenas cadeiras posicionadas em lugares diversos. Andamos pela terra e sentamos ao lado de uma imensa cerejeira, dentro de um local que parece estar no pôr-do-sol, ao lado de janelas que dão para 10 andares de altura. No entanto o que nos chega ao começar o espetáculo é bem menos, bem mais sutil e por isso acaba tocando muito mais.

    Carrego uma certa angústia quando noto atuações naturalistas/realistas no teatro. Mas essa expressão não dá conta do que é a interpretação das duas duplas no espetáculo. Há um quê dos silêncios de Jon Fosse, um pouco de novela da Globo (difícil reconhecer, mas há) e muito de um tempo de diálogo extremamente bem trabalhado entre os atores. Fico me perguntando o que fizeram os preparadores corporais nessa peça e suponho que seja frescura, pois o que há sim nessa montagem é uma mão exata nas marcações e um ensaio meticuloso das falas. Tudo, afinal, corrobora pra fazer os três mundos apresentados no espetáculo serem ultrareais.

    A certo momento, pensamos no melodrama. Sim, ele está presente, sobretudo na trilha. O medo bate quando a equipe Bacante olha pro lado e encara ela, Marie Gabi, a Gabriela e pensa: fudeu. Mas não, não há razões para pânico. Lembramos que ela estava também na noite dos ilustres em que estreou A noite no Aquário, na trilogia de nove peças da Praça Roosevelt. A maior cria da E.A.D. parece que também respira os novos ares do teatro. E voltamos para o melodrama, mas agora ele não assusta mais.

    Da história, basta dizer que começa com a relação entre Cyclone (musa dos autores que escreveram o Perfeito Cozinheiro) e Oswald de Andrade, e termina com a relação entre Cyclone e Oswald de Andrade. Só que esqueçam a história real. Aliás, isso vale muito para professores de literatura: não levem seus alunos para assistir essa peça. Inclusive, professores, os atores têm sotaque nitidamente carioca pra falar da história paulista. Não há verossimilhança, graças a Deus. Não vale pro vestibular.

    Enfim, O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo, assim como os filmes de Wong Kar-Wai, é peça pra ser vista três, quatro ou cinco vezes. Uma para a cenografia, outra para entender a interpretação e muitas, mas muitas outras vezes para aprender um pouco mais sobre dramaturgia de adaptação.”
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    Fonte: http://www.bacante.com.br/revista/critica/o-perfeito-cozinheiro-das-almas-deste-mundo

  3. BrasilBrasileiro
    Posted 3 fevereiro, 2009 at 9:07 am | Permalink

    Matéria recuperada da Internet (III)

    “Diante da flor, Cyclone por Patrícia Flores

    Está em cartaz até outubro na Escola de Cinema Darcy Ribeiro, no Centro, a peça “O Perfeito Cozinheiro Das Almas Deste Mundo”. Inspirada na obra homônima de Oswald de Andrade, a peça aborda a relação do modernista com Maria de Lourdes Castro Pontes.

    Peças sobre relações de casais têm aos montes em todo lugar. Não é fácil encontrar uma que trate do assunto de forma mais interessante, poética ou madura. Muitas são comédias superficiais ou melodramas sem tom. Mas O Perfeito Cozinheiro… achou um bom caminho pra abordar o tema. A peça agrada com um tom doce e real.

    A idéia de partir do romance de Oswald (“Miramar”) e Maria de Lourdes (“Cyclone”) foi acertada. É muito instigante imaginar como o pai do modernismo administrou o seu “desarmamento” diante da paixão por uma moderna normalista dez anos mais nova. Todos sabem que foi uma paixão tórrida, marcante e inspiradora para o artista, algo que deixou uma marca profunda na vida e obra de Oswald. Uma história conturbada com final trágico e romântico, como as mais famosas e adoradas histórias de amor que povoam a literatura e o consciente coletivo da sociedade. Os atores Luiza Mariani e Diogo Salles são os encarregados de representar esse casal tão especial. E o fazem com muito carisma. Mariani conquista o público imediatamente. Os diálogos ajudam nessa boa troca com a platéia. São enxutos e carismáticos. É gostoso presenciar a tensão entre o amor e o ciúme, o desespero de Oswald diante de tão enigmática mulher, a sua impotência diante dos constantes sorrisos marotos daquela mulher. Também é interessante assistir à angústia abafada da mulher que vê sua saúde debilitada, sua vida se esvaindo, mas só quer mostrar alegria e segurança. Uma autêntica mulher moderna, que mostra confiança e romantismo, que ao mesmo tempo que parece ser de ferro, se mostra delicada como a flor que sempre carrega.

    Depois de um bom tempo mostrando o casal histórico a peça retrata um casal se separando, dividindo os bens amigavelmente. O casal está na mesma casa que anos antes pertencera a Oswald. A direção mantém uma movimentação e forma de dialogar do segundo casal que o liga ao primeiro par, trazendo uniformidade à peça. A forma de mostrar ambas as histórias é enxuta e pontual e não subestima o público. Não há a preocupação de deixar tudo muito explicado, mas tudo é exposto de alguma forma. A história dos dois casais é passada com clareza e maturidade. Mateus Solano e Thiare Maia também estão bem. O tom naturalista de atuação escolhido pela direção combina com a peça e é efetuada com competência pelo elenco.

    Entretanto, a peça tenta retratar também um casal em 2100, tempo no qual as pessoas se esqueciam do seu passado recente, sem saber por quem nutriam sentimentos no dia anterior. Mas, nesse tempo, há um “Miramar futurista” que não esquece o seu amor pela Cyclone do século XXII e precisa reconquistá-la diariamente. Neste momento, a peça perde sua linha. A sorte é que corresponde a um momento curto do espetáculo. Mas, não acrescenta muito a história e perde o tom contido que até então a peça apresentara. O espetáculo estaria muito bem sem essa cena, com certeza. Desnecessária. Por mais que mantenha o romantismo e o carisma na atuação, a cena representa uma perda de harmonia na ambientalização montada até então. Só justificaria sair tanto do tom, se a cena complementasse o espetáculo, o que não acontece. Enfim, cena dispensável. A equipe poderia ter se prendido no passado e presente, para mostrar o futuro. Deixar o que vai ser da vida dos casais para a reflexão e imaginação do público teria sido mais poético e acrescentaria mais à peça.

    O Perfeito Cozinheiro… adaptou-se bem ao espaço da Escola de Cinema Darcy Ribeiro, que infelizmente apresenta desconfortáveis cadeiras de madeira para a platéia. O espetáculo não soube usar a iluminação no espaço, mas soube utilizar outros meios de ambientalização. Fez uso das grandes janelas, espalhou palcos de forma a ocupar todo o lugar e ter o público entre os atores. A árvore no meio de tudo com suas delicadas flores sobre a platéia e o elenco também foi um ponto positivo. Foi importante o público chegar nesse lugar, sentindo um leve e adocicado odor, ouvindo uma deliciosa música e esperar os atores entrarem sem campainhas histéricas de teatro. O ator entra se incorporando ao ambiente, quase sem ser notado, mesmo com toda a ansiedade que carrega. Entra sem pedir licença, pois não está invadindo o espaço da platéia, apenas está em seu lugar. Enfim, o início da peça preparou bem o público para o bonito e delicado espetáculo que assistiria. E, no final, saímos com um gostinho de prazer por termos assistido a um espetáculo tão tocante.

    O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo. Direção: Jefferson Miranda. Elenco: Luiza Mariani, Diogo Salles, Mateus Solano, Thiare Maia. Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Rua da Alfândega 5 / 3º andar – esquina com 1º de Março, Centro (Informações: 2516-9972; Reservas: 8152-2885). Qui e sex, às 19h30. Sáb e dom, às 19h. R$ 20. 14 anos. Até 29 de outubro.”
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    http://www.pacc.ufrj.br/literatura/arquivo/emcena_diante_da_flor_cyclone.php

  4. BrasilBrasileiro
    Posted 3 fevereiro, 2009 at 9:11 am | Permalink

    Matéria recuperada da Internet (IV)

    “Quando a vida dá um romance (ou mais)

    LUIZ SUGIMOTO

    Tem vida que rende um livro. Mas tem vida que rende muitos livros. É o caso de Oswald de Andrade, que viveu de 11 de janeiro de 1890 a 22 de outubro de 1954. Escritor, redator, crítico literário, benfeitor das artes plásticas, boêmio, turista cultural, polêmico, irônico, cafeicultor empobrecido pelo crack da Bolsa em 1929, militante político e, por tudo isso, um homem de profundas amizades e inimizades, ele se consagrou como um dos expoentes modernistas da literatura brasileira.

    “Planejei traçar este perfil intelectual convencida de que, ao contrário de Flaubert, o cidadão Oswald de Andrade apresenta-se inteiramente visível na sua obra”, escreve a professora Maria Eugenia Boaventura, ao apresentar seu livro O Salão e a Selva: Uma Biografia Ilustrada de Oswald de Andrade (Editora da Unicamp/Editora Ex Libris, 1995). De fato, constata-se nas ricas páginas produzidas pela pesquisadora do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, uma afirmativa que José Oswald Nogueira de Andrade, filho do escritor, fez a Antônio Cândido: “Creio que a obra de Oswald não pode ser estudada desvinculada de sua vida”.

    Vida atribulada e obra revolucionária, que já renderam uma infinidade de trabalhos e continuam despertando muito interesse. Para os interessados, uma fonte imprescindível é o Centro de Documentação Cultural “Alexandre Eulálio” (Cedae), do IEL, onde está preservado o arquivo pessoal do escritor, adquirido com os seus herdeiros: Adelaide Guerrini de Andrade, Rudá de Andrade e Marília de Andrade. O acervo está disponível ao público, mas a consulta deve ser feita no local.

    “São correspondên-cias, originais manuscritos, artigos para jornais, prosa, poesia, textos políticos, livros, documentos pessoais, enfim, um leque bastante grande com aproximadamente dois mil itens”, explica Flávia Carneiro Leão, supervisora do Cedae. Ela informa que vários desses documentos, no momento, estão cedidos para a exposição “Da Antropofagia a Brasília”, que vai até 2 de março no Museu de Arte Brasileira, na Faap. Esta grande exposição, organizada pelo professor Jorge Schwartz, da USP, já fez sucesso na Espanha e depois vai a Buenos Aires.

    Os rumorosos casos de amor de Oswald também são registrados no acervo do Cedae. Ele casou-se sete vezes, pela ordem, com: Henriette Denise Boufleur (Kamiá), Maria de Lourdes Douzani Castro (Daisy ou Miss Ciclone), Tarsila do Amaral, Patrícia Galvão (Pagu), Pila Ferrer, Julieta Bárbara Guerrini e Maria Antonieta d’Alkmin. Sendo impraticável em única página uma boa abordagem geral do acervo, ou mesmo dos romances mais barulhentos, o Jornal da Unicamp opta pelo lúdico, reproduzindo trechos de O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo (1918). É uma obra coletiva e divertida, focada em Daisy (ou Miss Ciclone), que morreu devido a complicações de um aborto mal feito e com quem Oswald de Andrade se casou in extremis.

    O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo

    Oswald de Andrade montou um estúdio no centro de São Paulo, freqüentado por jovens como Guilherme de Almeida, Vicente Rao, Inácio da Costa Ferreira, Sarti Prado, Edmundo Amaral, Pedro Rodrigues de Almeida, Leo Vaz e pelo então jovem senhor Monteiro Lobato. Maria de Lourdes Douzani Castro (Daisy ou Miss Ciclone), uma normalista de 18 anos incompletos, era a única mulher da “garçoniere”, logo cortejada por todos.

    Desta convivência – em meio a receitas culinárias, obras de arte e discos na grafonola – surgiu a idéia de um livro coletivo, em forma de diário, publicado pela editora Ex Libris, com um projeto gráfico diferenciado e cuidadoso, preservando tintas e lápis coloridos, desenhos, colagens e outros meios com que os freqüentadores registravam suas observações diárias. Muitos usavam pseudônimos e Daisy ainda imitava a caligrafia de amigos para se divertir. Ainda assim, pode-se identificar a maioria: Oswald como Garoa ou Miramar; Lobato como Frei Lupus ou Irmão Ancylostomo; Edmundo Amaral como Viviano ou Viruta; o artista plástico Ferrignac como Ventânia ou Jeroly; Pedro Rodrigues como João de Barros. A seguir, alguns trechos do diário: ***

    Paradoxo para uso interno:

    -A mulher é a costela de Adão, o sopro de Deus e a saudade da Serpente. (João de Barros)

    -… ou a saudade de Deus, o sopro de Adão e a costela da Serpente. (Miramar)

    -O perigo do engasgo de Adão não foi ter sido com a maçã e sim com a própria costela. (M)

    A Cyclone é a quarta virtude teologal. (CV)

    É o pecado imortal. (Miramar)

    Os beijos da Cyclone descendem em linha reta e sempre varonil dos beijos de Lucrécia. (Jeroly)

    Os abraços dos abraços do tamanduá na parede. (M)

    Miss Cyclone, meu “Vermouth Cinzano” dos ágapes “pinianos”… (Jeroly)

    Lagarta rosada do meu algodoeiro! (M)

    Monteiro Lobato dos opilados! (Jeroly)

    Daisy é o pirão deste menu. (M)

    Pensamento inconfessável de Cyclone: “Às meias luzes eu prefiro as meias de seda”. (Miramar)

    Madrigal itaporanguense: “O fogo da mulher amada não queima, ilumina”. (M)

    Decididamente, este covil sem Cyclone é inútil como um gramofone sem discos. (Ventania)

    O covil sem a Cyclone… eu preferia, no entanto, a Cyclone sem o covil. (M)

    A “mão real d’unhas perfeitas” da Cyclone é o resultado de cinco séculos de ociosidade (isto já disse Balzac). (V)

    Cyclone voltou! No grande olhar desfalecido traz a vermelhidão tracômica de velhas noites de libertinhagem…

    Cyclone voltou! Musa gavroche do vício ligeiro…” (V)

    Cyclone voltou! No vulto desmoronado do Braz-Montmartre, das noites rubras da “Boite-à-Fursy”… Lucie-la-Pompe dos trottoirs lamacentos da Avenida Celso Garcia! Juliette Roux do Gasômetro! Nunca mais assim.

    Cyclone não vem. De sua última visita, tumultuosa, incoerente, vazia, me ficou a última frase: – Não acredites mais num homem para que não fiques sabendo que existe mais um cão sobre a terra.

    Daisy, minha carrocinha! (Garoa)

    Esse é o meu guia e espião: arranjei um namorado japonês que possui o lindo nome de Harussam (sobrinho de cônsul japonês), vê que sorte! (Cyclone)

    Há dias que um opilado de bigodinho amola o Fiori com perguntas sobre o “Nhacio” e o “otra moço”. Não há dúvidas, é o japonês da Cyclone. (G)

    O Oswald me fez esta revelação: a Cyclone contratou o Spencer Vampré para traduzir as doçuras amorosas do amarelinho. (JB)

    Sabes porque a Cyclone se casa com japonês? Porque gosta de “amar eles”. (Gtroçadilhista)

    A Cyclone escreveu que ela é a esfinge do Brás; o japonês é a oitava praga d’aquele Egito. (Homem)

    Chego; toda atarefada no casaco d’inverno, busco em toda esta esplêndida “garçoniere” os vultos amigos dos meus rapazes. Mas qual, nem um sequer a quem dar um beijo rápido de chegada. Muito grata, meus queridos pelo lindo presente. Estou com febre 38 ½!! (não se assustem). Até 3ª feira às 11 horas; aprontem o almoço “a Trianon” que virei passar aqui toda a “matinée”. Perdoem. (Cyclone – estou com uma dor de dentes).

    Chego ainda a tempo de vê-la galgar ligeira o estribo poeirento de um bonde e mergulhar, com a lentidão do monstro de ferro, n’esse abismo brumoso da várzea que faz supor, para lá, no bastidor do crime das vielas, a existência de romance em que ela se obstina. Com uma timidez de potache, murmurei-lhe entre os dentes um “bom dia” idiota. Ela nem sorriu nem olhou. Partiu… Pela primeira vez, percebi uma coisa séria – que ela me faz falta. (Mirabysmo)

    Toda a psicologia complicada de uma mulher está num efeito de má óptica – elas dão grande valor às coisas mínimas e com isso nos contrariam e às vezes nos assombram; às coisas realmente grandes dão o valor mínimo e por isso nos perdem. (G)

    uA minha vida é assim: eu começo a fumar, você acaba… (G)

    uCyclone disse que estava aqui às dez, é mentira. Até logo! Já volto. (G)

    Garoa chegou de chapéu trocado e ar esbugalhado. Nova aventura. (Vivi)

    Cheguei cá às 9 horas: ninguém. Telefonei para a “Gazeta” a perguntar por Miramar: – Ainda não chegou? perguntei… anda gazetando não?… e responderam-me: – Sim senhora, ele escreve na Gazeta! (Cyclone)

    Versos da Cyclone: “Eu sou como uma cobra cascavel! Sou tratada a pontapé!”. (Cyclone)

    A mulher não é nem o que quer. (Cyclone)

    Precisamos acabar este livro. Precisamos – Porquê? Porque precisamos. O Fiori subiu o aluguel do quarto. Agora é 280$000 – um terno no Carnicelli. Vamos nos mudar, sim. Para onde? Na casa do conde. Do de Prates? Seja. A Pira desistiu. O Metropol faliu? Faliu.

    A Cyclone foi-se embora. / Estou triste, Miramar chora, / Ferrignac resiste / O Leu insiste: / Foi embora? / Viruta: ora!

    Eu não ficarei lá. Voltarei dentro de 1 mês. Naturalmente ficarei o resto de agosto. Quero que me escrevas para lá. (Cravinhos – Caixa do Correio 19. M. de. L. Pontes. Ao cuidado do Snr. Ignácio da Costa). Eu responderei para a Gazeta, porque o nosso retiro já é conhecido deles. Caso possa te telegrafarei da 1ª estação. Guarda as memórias contigo. Adeus. Beija a cabeça da pobre Cyclone.

    …e o livro se fecha silenciosamente, com a prestigiosa atração das cousas silenciosas: “mon silence est ma force… (M)

    E tanta vida, bem vivida, se acabou. (Cyclone)”
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    Fonte: http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/dezembro2002/unihoje_ju201pag12.html

  5. BrasilBrasileiro
    Posted 3 fevereiro, 2009 at 9:14 am | Permalink

    Matéria recuperada da Internet (V)

    ” Cozinheiro das Almas: Apontamentos para o Game

    Grupo Poéticas Digitais:
    Gilbertto Prado, Jesus de Paula Assis, Paula Janovitch,
    Lívia Gabbai, Luciano Gosuen, Fábio Oliveira,
    Gaspar Arguello, André Furlan e Hélia Vannuchi

    Resumo: A partir do livro “O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo”, diário da garçonnière mantida por Oswald de Andrade entre 1918 e 1919, o Grupo de Pesquisa em Poéticas Digitais (ECA-USP) iniciou o desenvolvimento de um videogame no qual o personagem principal se perde na São Paulo de 1918 e visita interativamente vários ambientes nos quais vai aos poucos descobrindo a trama. Tudo se passa em um só dia. Dessa forma, é um roteiro de ambiente virtual duplamente labiríntico: são labirintos espaciais (os vários ambientes) e temporais (pois as tramas dentro de cada ambiente são lineares, mas o jogador pode aportar nelas em qualquer fase de seu desenvolvimento). Como objetivo é criar um ambiente ficcional de ação, mas historicamente preciso. Para tanto, é necessário aliar pesquisa histórica, programação e uma abordagem distinta das narrativas interativas. O jogo encontra-se em desenvolvimento.

    Palavras-Chave: Videogame. Artemídia. Narrativa interativa.

    Abstract: The game “Cozinheiro das Almas” is being produced by the Grupo Poéticas Digitais based on the book ” O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo” (The Perfect Cook of the Souls of this World), diary of the garçonnière (bachelor pad) kept by Oswald de Andrade in 1918/19. The text deals with the relationship between Oswald and Deysi, who is a 17 year-old high school student at the time, and other visitors to the garçonnière. Deysi dies from tuberculosis and marries in extremis to Oswald on her death bed. The video game is in the first person – in which the the player, gets lost in a virtual representation of Sao Paulo in 1918 and interactively visits a number of different environments in which little by little he/she finds out what is going on.
    Everything takes place in the space of a single day and the character is flung from one place to another regardless of his/her wishes. In this way, it is a script of a doubly labyrinthine virtual atmosphere: there are spatial labyrinths as well as temporal ones.

    key words: Game. Media Art. Interactive narrative

    1. INTRODUÇÃO
    Desde a publicação dos primeiros ambientes de realidade virtual até o presente, a indústria tem apresentado pouca evolução no que diz respeito a conteúdo narrativo, pois a maior parte dos jogos em primeira pessoa ainda se baseia fortemente no point and shoot. O máximo no momento é representado por videogames em que partes narrativas (passivas) e partes interativas são justapostas ou em que a câmara sai de subjetiva para terceira pessoa, com perda momentânea da interatividade, quando então iniciam-se outras formas narrativas. No campo das experimentações artísticas, o horizonte não é diferente.
    Esse estado de coisas pode ser explicado de várias formas, sendo que a mais
    comum é recorrer ao fato de que os jogos de realidade virtual respondem a um mercado comprador formado principalmente por adolescentes e deve sempre repetir as formas tradicionais, com comprovado potencial de venda. A explicação, entretanto, não parece satisfatória, pois em outros campos de expressão, existe espaço, ainda que menor, mas comercialmente viável, para obras mais requintadas, que vão ao encontro do gosto de um público mais educado. Talvez o problema seja de definição: o que devemos entender afinal por “narração” quando desenvolvemos ambientes virtuais interativos?
    Desde que a palavra “interatividade” entrou para o vocabulário corrente em informática, um divisor se estabeleceu a respeito da capacidade narrativa de programas de computador que envolvem imersão em mundos virtuais, sejam eles em duas ou três dimensões:
    a) os programas comerciais tenderiam à satisfação imediata das emoções humanas mais básicas, recorrendo à fórmula do point and shoot;
    b) haveria um meio de usar narrativamente esses ambientes, de forma que pudessem expressar emoções mais complexas e levar à reflexão.
    Iniciamos nossa indagação com: quem vai percorrer (na falta de verbo melhor para definir “leitura” nesses ambientes) esses tipos de trabalho artístico ou de entretenimento e por que o faria? Segundo: interatividade e narração são de fato, miscíveis, de que forma e em que medida? O projeto do desenvolvimento do game Cozinheiro das Almas tenta também trazer à tona essas questões. Ademais, o projeto traz como intenção de diferencial em relação à grande parte dos games os seguintes itens:
    a) sua temática brasileira, com elementos históricos e de ficção;
    b) a ausência de elementos comuns em games como placares, pontuações etc.;
    c) a justaposição de labirintos espaciais e temporais.
    Os ambientes virtuais disponíveis no mercado, seja os distribuídos em CDs, seja os distribuídos na Internet, tendem a privilegiar a ação e a destreza manual dos jogadores. Jogos com uma temática histórica são raros e principalmente de simulação, isto é, adotam uma mecânica de jogo na qual o interator escolhe valores para variáveis e, em seguida, testa o resultado (jogos de estratégia, de guerra, SIMs etc.). Este projeto tem, portanto, dois objetivos que caminham juntos: criar um ambiente ficcional de ação, mas que seja ao mesmo tempo historicamente preciso.
    2. SOBRE O TEXTO DE REFERÊNCIA “O PERFEITO COZINHEIRO DAS ALMAS DESTE MUNDO”
    Em 1918, de abril a setembro, Oswald de Andrade manteve um romance e um diário aberto. O romance era com a normalista Maria de Lourdes Castro de Andrade, também chamada de Deisy e Cýclone, e o diário era um caderno que Oswald guardava em sua garçonnière, na rua Líbero Badaró, 67, 3º andar. Nesse diário, escreviam Oswald, Deisy, Monteiro Lobato, Guilherme de Almeida, entre outros, sempre sob pseudônimo.
    Em setembro, Deisy vai para Cravinhos, para a casa de familiares, por estar muito doente. Morre em São Paulo, em agosto do ano seguinte, aos 19 anos, uma semana depois de se casar, in extremis, com Oswald.
    Em torno desse diário, o Grupo de Trabalho de Poéticas Digitais criou o roteiro de um ambiente virtual interativo, no qual Deisy e a garçonnière de Oswald vão precipitar as pessoas numa viagem à São Paulo de 1918, fazendo-as se perder em um labirinto temporal.
    3. INÍCIO DA AÇÃO
    2005. Uma seqüência de vídeo que alterna cenas da São Paulo de hoje e da São Paulo de 1918 cria a imersão no ambiente. O explorador sai de sua casa e pára diante de um edifício em ruínas na rua Líbero Badaró. Entra nele, encontra o aposento que um dia foi a garçonnière de Oswald de Andrade e é então arremessado no tempo.

    3.1. A MECÂNICA DO JOGO E OS AMBIENTES
    Este é um jogo de labirinto temporal e espacial, puramente exploratório, mas com uma “missão”, que o jogador ficará sabendo a medias res, sem ter de ser instruído a respeito. Os ambientes são 10:
    1. a própria garçonnière / 2. o Teatro Municipal / 3. a casa de um barão, na avenida Paulista / 4. a Escola Normal / 5. o Conservatório Dramático e Musical de São Paulo / 6. um bonde / 7. um mercado / 8. um quarteirão pobre no Brás / 9. uma delegacia de policia / 10. um centro de poder (a Assembléia Legislativa).
    Em cada ambiente, existe uma história. O dia será dividido em seis seções de duas horas (10 às 12, …, até 20 às 22). O caráter labiríntico do jogo é dado pelo fato de o jogador ser arremessado a um momento, num dos ambientes. Por exemplo: no Teatro Municipal, pessoas preparam uma apresentação noturna. Enquanto o fazem, conversam, deslocam coisas, começa um ensaio etc. O jogador poderá chegar ao teatro no momento 1, depois no 2 etc. e ver a história regularmente ou chegar ao teatro no momento 3 daquela seqüência e, de repente, ser arremessado ao momento 1 de outra, ao 1 de outra ainda, para então voltar ao teatro no momento 2 e então compreender melhor o que vira antes.
    Sempre será possível ao jogador desistir. Desistindo, pode passear (não interativamente) pelos dez ambientes, viajando em cada um deles na seqüência temporal correta.
    A viagem ao passado o levou à garçonnière e, em seguida, ao Teatro Municipal, onde ficou apenas um minuto, antes de ser arremessado a outra seqüência, desta vez na Escola Normal, onde um professor dá uma palestra de física e o jogador ouve que tempos diferentes não contíguos não podem se encontrar, pois isso contraria a recente teoria do doutor Einstein. “E se isso acontecesse, e se um objeto do futuro fosse parar no passado?”, pergunta um aluno. O professor esclarece que esse objeto destruiria o tecido do tempo e que seria preciso recolhê-lo de alguma forma.
    De fato, tanto a viagem no tempo como a preleção do professor na Escola Normal servem apenas para explicar ao jogador/explorador o que ele tem de fazer para se movimentar nos ambientes. Não se trata de um jogo de ficção científica, mas uma viagem fantástica a um determinado dia de 1918.
    Na (FIG. 1) vê-se a ilustração do roteiro com apenas 5 ambientes e três momentos no tempo (5×3, 15 seqüências). No roteiro, teremos 10 ambientes e sub-histórias com seis momentos, o que garante muita exploração.

    FIGURA 1: Ilustração do roteiro com apenas 5 ambientes e três momentos no tempo (5×3, 15 seqüências).

    3.2. GAMEPLAY
    O JOGADOR:
    a) nunca se vê, salvo em alguma reflexão (e mesmo a reflexão será em espelhos ruins, de modo a manter a identidade do jogador um tanto misteriosa), ou quando pega algum objeto no ambiente (ou seja, a exploração é sempre em primeira pessoa)
    b) é visível por todos os outros atores do jogo
    c) anda, ouve diálogos, move objetos
    A SEQÜÊNCIA DO JOGO:
    a) vídeo de abertura
    b) entra na garçonnière depredada
    c) ocorre o acidente (o desmoronamento do edifício)
    d) vídeo de transição, sugerindo viagem no tempo
    e) acorda na garçonnière em 1918 (para caracterizar o ano, podemos ter calendário na parede, cartaz de um espetáculo, jornal aberto ou rádio ligado —sendo que o recurso ao rádio não exclui os outros, pois cria ambiência sonora)
    f) percorre rapidamente a garçonnière
    g) a programação faz com que ele passe por um certo objeto e o toque sem querer
    h) é jogado na Escola Normal às 18 horas, no momento em que acontece uma palestra de Amoroso Costa sobre a estrutura do tempo
    i) é devolvido à garçonnière
    j) a partir daí, começa o jogo propriamente dito
    O QUE O JOGADOR PRECISA PARA SABER JOGAR:
    a) em que época está (resolvido na transição entre acidente e garçonnière em 1918)
    b) que viajou no tempo (resolvido da mesma forma)
    c) que deve recolher objetos e recolocá-los na garçonnière (isso será abordado de passagem na seqüência da palestra na Escola Normal)
    d) que tomando um líquido verde ele ganha permanência no ambiente em que está (isso pode ser resolvido por conversas de corredor na Escola Normal).
    Vamos evitar na tela qualquer tipo de placar, a fim de não comprometer em momento algum a imersão do jogador no ambiente virtual. Assim, deveremos dar conta do efeito do líquido verde (que pode ser o absinto, cujo consumo era moda na época) por dicas do ambiente.
    Faremos isso usando uma estética pouco comum em explorações em primeira pessoa: o jogador vai ficando mais lento e de vez em quando há flashes ou lags no ambiente —como se ele tivesse acessos de tontura. Depois de um certo limiar, ele “morre” no ambiente, isto é, é lançado de volta à garçonnière. Para que ele conheça o efeito do absinto, se ele tocar em uma garrafa sua disposição para ação, por uns instantes fica *acima* do normal. Com isso, evitamos explicar ostensivamente o efeito do líquido, introduzimos naturalmente um elemento dramático (afinal, é o líquido que possibilita uma exploração mais completa do ambiente) e escapamos de um clichê dos jogos de ação, nos quais o grau de energia ou de saúde do jogador não tem relação com sua disponibilidade para agir, mas apenas com a iminência da “morte”.
    A INTERFACE:
    É a própria garçonnière (como ela varia com o tempo, não precisamos ter lá todos os objetos/portais de uma vez). Vamos evitar na tela qualquer tipo de placar, a fim de não comprometer em momento algum a imersão do jogador no ambiente virtual.
    Para dar ao jogador a sensação de que seu tempo em um dado ambiente está terminando, tornaremos seus passos mais lentos. Logo antes da transição, sua vista ficará embaçada, sugerindo vertigem. Em alguns pontos dos ambientes o jogador vai encontrar garrafinhas com um líquido verde. Se tomar seu conteúdo, perceberá que pode ganhar mais tempo de exploração naquele ambiente.
    A MECÂNICA DO JOGO:
    a) chega a um ambiente ao tocar em um objeto na garçonnière (ela se fragmenta no espaço e o objeto tocado recua);
    b) esse objeto se funde com o ambiente onde ele chega (o que dá conta de que sua missão naquele ponto é encontrar um certo objeto, a fim de o repor na garçonnière);
    c) andar, mover a cabeça, pegar e mover coisas. Isso será tudo;
    d) chega-se a um ambiente ao tocar em um objeto na garçonnière. Esse objeto se funde com o ambiente onde o jogador chega;
    e) pessoas conversam em pequenos grupos. Tudo o que ouvimos são texturas de sons; palavras e frases soltas pelo grupo, que permanece parado, como se fossem estátuas;
    f) o jogador pode ouvi-las até uma certa distância; quando se aproxima mais, elas param de falar. Podem mover os olhos ou apresentar algum outro movimento sutil, mas cada grupo permanece basicamente parado. Nesse momento de aproximação máxima, poderá acontecer de ele ouvir uma frase inteira. Com isso, deixamos as texturas de diálogos para preencher os ambientes e essas frases para dar conta da trama subjacente;
    g) relógios marcam horas certas (para que o jogador se situe no dia da ação);
    h) o diário será usado como interface e inventário de objetos (o diário está na garçonnière, suas páginas podem ser viradas e ele traz listas dos objetos — não explicitamente, mas em pequenos textos que falam de cada ambiente)
    9 ambientes e 6 objetos
    ambiente 1: objetos a1, b1, c1, d1, e1, f1 etc.etc.
    assim, ele pode saber que as tarefas em um dado ambiente já terminaram
    i) quantas vezes ele pode voltar a um ambiente? Quantas quiser. Basta tocar novamente naquele objeto.
    O QUE É DITO NA ESCOLA NORMAL:
    Que existem viagens no tempo e que certos pontos do espaço são especiais, são portais. Objetos nesses portais são chaves para locais distantes no tempo e no espaço e, para selar esses túneis, é preciso restaurar o portal à sua condição inicial (o que explica o caráter especial da garçonnière e de seus objetos). Na palestra, deve estar explícita a questão dos objetos.
    Para tal aproveitamos o fato de Amoroso Costa, um grande matemático brasileiro do início do século 20, ter escrito o primeiro livro no país sobre relatividade, lançado em 1919. Embora não haja registro de ele ter vindo a São Paulo dar uma palestra, utilizaremos esse mote para colocá-lo no ambiente virtual, falando sobre física moderna. Ele e outros elementos ficcionais referenciados e/ou inventados para a trama serão os personagens do ambiente virtual que co-habitarão com os jogadores.
    4. CONCLUSÃO DO GAMEPLAY

    Depois dos primeiros 2 minutos, o jogador terá:
    a) andado por São Paulo em 2006;
    b) chegado a 1918;
    c) olhado a garçonnière e reconhecido a data;
    d) entendido que a garçonnière é especial e que a chave para tudo são os objetos presentes nela (via palestra);
    e) entendido que o líquido verde o faz permanecer mais tempo em um ambiente.
    Isso fecha o que podemos chamar de “Introdução”. Daqui para diante, se o jogador quiser ir direto para a garçonnière, está liberado. Essa introdução tem dois pontos de salto, isto é, que podem ser pulados em uma segunda visita: o jogador pode optar por não assistir ao vídeo de introdução e pode também saltar todo o bloco seguinte.

    5. EQUIPE

    Grupo Poéticas Digitais:
    Gilbertto Prado (coord.), Jesus de Paula Assis, Paula Janovitch, Lívia Gabbai, Luciano Gosuen, Fábio Oliveira, Gaspar Arguello, André Furlan e Hélia Vannuchi

    Colaboradores:
    Raul Cecílio, Marcos Cuzziol, Maurício Taveira, Eliane de Oliveira Neves, Ricardo Irineu de Sousa, André Kishimoto, Silvio Valinhos da Silva, Rafael Rodrigues de Souza, Mônica Ranciaro, Natália Gagliardi e Paula Gabbai.

    http://www.cap.eca.usp.br/poeticasdigitais

  6. BrasilBrasileiro
    Posted 3 fevereiro, 2009 at 9:16 am | Permalink

    Matéria recuperada da Internet (VI)

    “O PERFEITO COZINHEIRO DAS ALMAS DESTE MUNDO

    dicionário de garçonniere
    por oswald de ANDRADE

    Nesse caderno de formato grande, Oswald e seus ami gos redigem, ora a lápis ora a tinta de várias cores, pensa mentos, comentários, trocadilhos, paradoxos, impressões sobre diversos fatos […]. Completam o diário, que é um livro objeto, colados, grampinhos de cabelo, pentes, charges da imprensa do tempo, cartões de visita, cartas, envelopes, recortes de jornal, e outras coisas inesperadas. É um journal de um tempo pessoal e coletivo, estilhaçado em fragmentos de variada autoria.
    Mais do que um diário, O perfeito cozinheiro constitui um caótico, desencontrado ou desordenado romance, por onde se desenvolve uma história de amor, com seu pathos e sofrimento desentranhados de uma realidade intensamente vivida. Um romance de nova estrutura, de técnica inusitada, desconhecida, de um surrealismo natural e espontâneo, em que estão o clima e os personagens que vão gerar e povoar Os condenados, e outras obras do autor […]. O gosto pelo trocadilho, cultivado abusivamente no diário, o amor pelas situações insólitas e im previstas, com tons de sátira, zombaria e caçoada, caracterís ticos da obra de Oswald, têm a mesma fonte.
    O diário, por outro lado, apresenta ainda específico valor – é, em si mesmo, com suas tintas de diversas cores, suas colagens, trechos a carimbo, caricaturas, charges e cali grafias diversificadas, um objeto criativo, uma invenção como livro, peça rara em sua aparência e organização. É precursor de várias obras que, graficamente, tentam inovar as formas de comunicação. Texto e contexto, aspecto interior e exterior, forma e fundo, estão indissoluvelmente ligados nesse pre cioso documento de uma época e de uma cultura.”
    ———-
    Fonte: http://sendasdebasho.blogspot.com/2007/09/o-perfeito-cozinheiro-das-almas-deste.html

  7. BrasilBrasileiro
    Posted 3 fevereiro, 2009 at 9:20 am | Permalink

    Matéria recuperada da Internet (VII)

    “A CRÔNICA

    O gênero, sua fixação e suas transformações no Brasil.

    A Crônica Mundana

    UMA LEITURA DO PERFEITO COZINHEIRO

    Artigo apresentado originalmente no seminário sobre a crônica
    realizado no auditório da Fundação Casa Rui Barbosa em 10/88,
    e publicado no livro A CRÔNICA (Ed. UNICAMP e FCRB)

    O perfeito cozinheiro das almas deste mundo (edição fac-similar, em cuidadoso projeto gráfico de Frederico Nasser para a Editora Ex-Libris e financiado pelo Instituto Walter Moreira Sales). é uma reportagem viva e movimentada da vida intelectual e social do Brasil art nouveau; e uma crônica alegre do dia-a-dia de um grupo de intelectuais da São Paulo do início do século, montado em cinco meses, de 30 de maio a 12 de setembro de 1918, grupo esse que mais tarde construiu a literatura moderna do Brasil e atuou na vida política nacional. No estúdio que Oswald de Andrade mantinha no atual centro da cidade (Rua Líbero Badaró, 67, sobrado), um grupo de jovens entre 21 e 28 anos imaginou esse curioso livro coletivo, em forma de diário, em que uma normalista de 18 anos incompletos, única mulher do grupo, se transformou na estrela principal. Aliás, na razão de ser do álbum, “a Cíclone, ela sozinha basta para encher um ambiente intelectual de homens do quanto ele precisa de feminino, para sua alegria e seu encanto”. Oswald de Andrade, 28; Inácio da Costa Ferreira, 26; Edmundo Amaral, 21; Pedro Rodrigues de Alrneida, 28; Vicente Rao, 26; Léo Vaz, 28; Guilherme de Almeida, 28; Sarti Prado, 26; Menotti del Picchia, 25; Monteiro Lobato, o mais velho, 36 anos e Maria de Lourdes Pontes (a Miss Cíclone) construíram despretensiosamente um texto engraçado, irreverente e moderno quanto à concepção e estrutura. Realização interrompida talvez em virtude do vazio deixado pela mudança do “cozinheiro” Pedro Rodrigues de Almeida (o João de Barros) para o interior, bem como da musa inspiradora e pela ameaça de reajuste do aluguel do estúdio, como anunciava Oswald num dos seus recados no Diário: “0 Fiori subiu o aluguel do quarto. Agora é 260 000 – um terno do Carnicelli. Vamos nos mudar” Além disso, a Miss Cíclone, à distância, exigia a dissolução do “refúgio amoroso” decorado com “retrato da Anna Pavlova, reproduções célebres, loucuras do Di”, quadros da Anita Malfatti e animado pela grafonola chiando ecleticamente obras clássicas e tangos. Quando estiveram reunidos nesse estúdio, Oswald e seus amigos aproveitaram para documentar essa convivência, deixando gravadas as aventuras de um animado grupo classe média, quase que unanimemente composto por bacharéis em Direito, freqüentadores da missa dominical em São Bento, cujo maior prazer era a visita sempre inesperada da fascinante Miss Cíclone. A agitação da garçonnière quebrava o ritmo morno da vidinha provinciana. Mais de uma vez eles se queixaram desse marasmo. Monteiro Lobato foi um deles:

    É preciso salvar Ferrignac – para que Ferrignac salve São Paulo do Tédio. Só Pelágios. O boletim da Guerra às quinta… O viaduto! Taunay do Museu! A Revista do Brasil O Zeca ! o Quinzinho Queirós! O Zezinho do Dicto! A colaboração das leitoras! Os Urupês! a “Luizinha”, o Bentinho de cá amargo e municipal, a Cíclone feita mico de baralho – longe, escondida o “Pequenino Morto” , sempre, sempre… Ferrignac acorda, salva-nos.

    O cotidiano desses intelectuais era preenchido também por leituras (os franceses, Eça, Wilde, D’Annunzio, Scribe, Augusto de Castro, lbsen, Dostoievski, etc.), récitas, concertos no Municipal, almoços no Paço de S. José, passeios ao Brás e ao Triângulo, encontros no Hotel Rotisserie Sportsman (o hotel mais luxuoso de São Paulo, o único com elevador), chá “melancólico” no Mappin, crepúsculo no Jardim América e escrever em francês.

    O esquema da montagem desse manuscrito ou álbum (como queiram seus criadores) colorido por tons exóticos de tíntas – da famosa marca Gunther Wagner – lilás, verde, vermelho, grafite, lápis vermelho e azul foi bastante informal. Recortes, carimbos, desenhos, cartas, caricaturas, grampos, manchas de batom, músicas, versos soltos, etc. de parceria com as falas de Ferrignac e Oswald deram o tom alegre e insólito ao texto. O emprego da colagem sem intenção programática, apenas para divertir, resultou numa construção muito moderna, lembrando, em muitas passagens, as ousadas produções dadaístas da década de 20. Livro objeto funcionou como diário daquele retiro “colorido e musical”, fez as vezes de mural de aviso, de livro-visita e antecipou a multifacetária estrutura do romance invenção de Oswald de Andrade. Provavelmente nasceu com O perfeito cozinheiro a idéia inovadora da realização do livro enquanto objeto de arte posta em prática por ‘Oswald no Pau-Brasil e no Primeiro caderno, onde ilustração e texto se completam.

    Além do eclético pano de fundo musical, que dialoga corn o estado de espírito dos personagens e se constitui num dos elementos da armatura do álbum, na sua tessitura perpassam fragmentariamente impressões variadas sobre assuntos e fatos palpitantes do momento: a literatura oficial, os figurões da época, a culinária, o jubileu cívico de Rui, a guerra, a Liga Nacionalista, a temporada teatral, os filmes do momento, etc. Vozes desarticuladas (pois o elo de ligação são as brincadeiras e a animada disputa pela Cíclone) que fazem a crônica cultural de São Paulo no agitado ano de 1918.

    O grande conflito mundial inquietava o grupo que reage à sua maneira com muito humor: “a vergonha italiana findo no Caporeto”. Os italianos eram os “tocadores de sanfona” que precisavam reabilitar a sua “vergonha militar”. A guerra ecoou através de urna colagem de notícia tragicômica, colhida em um jornal qualquer: “PATRIOTISMO AS AVESSAS: um italiano que tinha de seguir para o front anavalhou o pescoço”, e de um recorte de uma manchete de jornal anunciando secamente: “Tropas brasileiras para Europa”. Não se sente nos comentários a dimensão trágica e problemática da guerra; por sinal, a guerra incomodou mais quando Paris foi ameaçada e o estoque de vinho importado no restaurante do Inácio acabou.

    O oponente literário da turma do Perfeito cozinheiro parecia ser o grupo da contemporânea revista Panóplia, 1917-1918 (“mensário de arte, ciência e literatura”), cuidadosamente ilustrado dirigido por Cassiano Ricardo e Pereira Duprat, que tinha entre seus principais colaboradores, numa primeira fase: Wenceslau de Queirós, Da Costa e Silva, Renê Thiolier, Spencer Vampré, nomes citados entre as brincadeiras (“lemos coisas do sr. Thiolier – montão confuso de excremento literário”; um poema de Paulo Setúbal colado numa das páginas do Perfeito cozinheiro teve o nome Setúbal travestido: Masturbal). Em 1918 o elenco de colaboradores da revista foi ampliado: Guilherme de Almeida, Menotti del Picchia, Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Rodrigo Otávio Filho, Ronald de Carvalho, Álvaro Moreyra, Paulo Setúbal, Nestor Vítor, Voltolino, etc. Quanto ao lendário Anatole France, tão cultuado entre os escritores brasileiros, nesse álbum sua leitura por Léo Vaz era sinônimo de apego ao século XIX.

    A linguagem aforismática do manuscrito contou uma trágica história de amor e escreveu comicamente a crônica cultural do ano de 1918. A atividade de crítico teatral de Oswald de Andrade no Diário Popular e na Gazeta repercutiu nas páginas do Perfeito cozinheiro. Volta e meia comentavam as peças e o elenco das companhias estrangeiras em visita a São Paulo. Particularmente fizeram sucesso as atrizes da Comédie Française Sabine Landrag e Yvonne Mirval, também personagens do álbum. Marcante ainda para o jovem jornalista, foi a entrevista realizada com a dançarina russa Anna Pavlova, que rendeu várias piadas no livro e muita ciumeira da sua musa principal; mas Oswald de Andrade tratou logo de minimizar: “Ela tem marido, cachorro, frio e boceja como qualquer de nós”.

    O termo de abertura do álbum, vazado em estilo meloso e decadente, próprio do João de Barros, explicou a função e utilidade do álbum – “livro mais útil e mais prático e mais moderno deste século de grandes torturados” – que, juntamente com a morgada e os vinhos importados, serviu de companhia na solidão; e funcionou catarticamente como “um tablado, com lonas, gangas claras e bandeirolas, para nós clowns desarticulados, rirmos da vida, da Cíclone. . . ”

    Embora muitos usassem vários pseudônimos ou apelidos, a maioria deles foi passível de identificação. Para aumentar a carga de mistério e se divertir, a Cíclone imitava a caligrafia de alguns amigos; nas páginas 15 e 16, por exemplo, Oswald posteriormente identificou as falas da sua musa escrevendo a lápis MC (Miss Cíclone). As intervenções do poeta modernista Guilherme de Almeida, com sua inconfundível caligrafia rebuscada, marcaram presença geralmente em forma de poema: à página 51, algumas estrofes da segunda parte do poema “Ars Amandi” do capítulo “Dança das horas”, que integraram o livro Messidor; outra presença do Guy (como assinava Guilherme de Almeida) na página 81 trouxe o poema “Os últimos românticos”, incluído com algumas variantes no capítulo deste mesmo título também do livro Messidor, lançado em 1919. Há algumas pistas de desentrosamento do poeta de Natalika no ambiente informal, descontraído e sobretudo muito alegre do estúdio. Ventania, após uma das intervenções do Guilherme, reclamou:

    outro gemido, outro queixume … Guy … deixa uma piada, uma piada rica para a gente rebolar entre as almofadas do Miramar, quando voltares, antes de nos ver, entregue o teu luto ao menino ascensor.

    Monteiro Lobato não fugiu à regra, vestiu-se de várias personagens: Frei Lupus (p. 22); Ancylostomo (p. 35); Conselheiro Acácio (p. 44); Irmão Ancylostomo (p. 47); Chico das Moças (p. 75); Lob, Rowita, Constante Leitor (p. 164); Clone e Tutu Lambary Cuzcuz (pp. 174 e 175); por fim, Zé Catarro, na página de encerramento. Certamente as curtas e disfarçados aparições de Lobato se justificam pela sua posição social – autor consagrado de Urupês, dono de editora, editor da Revista do Brasil, etc. A propósito da dificuldade de se esclarecerem as entradas de Lobato no Diário, é interessante lembrar a observação de Edgard Cavalheiro, seu biógrafo, sobre a resistência do escritor em aparecer em público, a não ser sob o disfarce do pseudônimo. Imaginem o desconforto de Lobato, hoje, presenciando a edição desse álbum com sua participação identificada!

    Viviano, Foguinho, ou ainda Viruta foi com certeza Edmundo Amaral, conforme depoimento do próprio cronista (A Tribuna, 27 mar. 1955). A confusão persiste em relação a Vicente Rao, advogado, amigo de Oswald, Ministro da justiça no Estado Novo e mais tarde Ministro das Relações Exteriores. Rao não se expõe, mas costumeiramente era citado por Oswald como integrante da turma da garçonnière. O artista plástico Ferrignac desfilava com o nome de Ventania, Chico Ventania e jeroly. Por sinal, depois de Oswald foi o mais atuante e criativo membro do estúdio; o futuro delegado de polícia de Tatui, Pedro Rodrigues de Almeida, colaborador da revista modernista Klaxon, abriu o manuscrito com o nome de João de Barros, prometendo: arte e paradoxo, que fraternalmente se misturarão para formar, no ambiente colorido e musical deste retiro, o cardápio perfeito para o banquete da vida”. As suas observações e as da Miss imprimiam as notações ingênuas e fim-de-século do álbum. Finalmente, Léo Vaz, o Bengala e Sarti Prado que se disfarçou de Miles nas páginas 158, 160 e 161. Não foi possível identificar a presença de Menotti del Picchia; duas vezes Miss Cíclone se referiu a Paulo (pp. 154 e 171). Na primeira pedia para Oswald mandar por Paulo suas coisas que ficaram no estúdio; da outra, ao escrever bilhetes para todos os “gravatas”, enviou um também para Paulo. E Paulo Menotti del Picchia nas suas memórias fala sobre Dasy e Oswald como se tivesse encontrado os dois.

    Oswald estava saindo de uma fase de decepção amorosa que o deixou moralmente muito abatido. O rumoroso caso com Carmen Lydia, dançarina alemã de aproximadamente 14 anos foi manchete de jornal. Em alguns momentos, desesperado com a pressão da família e o insucesso amoroso pensou até em suicídio. O relacionamento com Cíclone abria novas perspectivas. Sentia-se outro. Bradava no Diário: “Saúde – Forca – mocidade: emoção – Rubinstein – 2$ 000 no bolso – boa vontade – Literatura.” O desabafo mostrou bem o estado de espírito do escritor, aliás, o mesmo de todo o grupo, movido a Chambertin nos momentos de bonança e a caninha nos dias magros, sem perder o humor:

    Trago rapadura de cidra e uma alma pré-homérica cheia de pinga com limão. Positivamente amanhece na vida. O cisne desliza agonizante na fonola, está tudo azul, o céu, a vida, a tinta.

    Na salada de experiências e de estilo do manuscrito, Oswald dominava, imprimia criatividade e irreverência ao texto, geralmente assinando Garoa, Miramar e M. e poucas vezes Nenê Rodrigues, nome este arranjado por Cíclone com o intuito de despistar a curiosidade dos seus familiares. Para o nome Miramar foram criadas inúmeras e divertidas variações, combinando com o assunto e o momento das intervenções (Miramarne, Mirabismo, Miramartir, Miramargura etc.). Comumente as investidos miramarinas em tom jocoso subvertiam o assunto e o discurso da passagem anterior, tomando a frase do companheiro como se fosse um mote, a fim de brincar de preferência com o estilo e fazer trocadilhos: “Cúmulo da paciência: Catar carrapatos com luvas de boxe . . . ” escrevia Viruta; retrucava Oswald: “Da impaciência: jogar boxe com luvas de pelica.” Esses trechos e outros assinados por Torquedilho e Troçocadilhista prenunciam a irreverência do estilo brincalhão do Oswald modernista da Revista de Antropofagia (l928-1929) e do Serafim Ponte Grande (l933). A verve miramarina despontava, embora diluída pela ingenuidade das brincadeiras com os companheiros e pela insistência em praticar as teorias estéticas de Wilde e D’Annunzio.

    Oswald estava atento às primeiras centelhas indicadores da modernidade no Brasil. já havia acontecido a exposição de Anita. E a propósito é interessante notar que além de ter sido o único dentre os futuros modernistas a defender a pintora publicamente na época, Oswald comprou vários de seus quadros e muitos Di para decorar as paredes do estúdio. Por outro lado, DI Cavalcanti, ajudado pelo escritor, tentava estabelecer-se em São Paulo. Um ano antes, os dois Andrades do modernismo tinham se encontrado e em 1918 começava a ser formado, a partir das repercussões da exposição de Anita, o primeiro grupo modernista. Ainda naquele momento, Oswald detectava imediatamente a importância do Urupês, obra recém-lançada: “É um formidável livro de combate ao atraso nacional e (… ) Monteiro Lobato é a ironia mais moderna que possuímos”. São essas as observações de um recorte de jornal, anexado ao diário: Patriotada culinária certamente de autoria de Oswald, criticando o almoço oferecido pelos admiradores do “príncipe da prosa brasileira” organizado pelo jornalista Simões Pinto. Portanto a atmosfera de novidade desse livro está diretamente vinculada a esses acontecimentos.

    O perfeito cozinheiro pode ser criticável do ponto de vista da inconsistência ideológica e da pobreza do seu conteúdo. Todavia, sua transformação em livro, 70 anos depois, é importante não apenas pelo trabalho gráfico de primeira categoria. Notabiliza-se por se constituir no gérmen das posições radicais assumidas por Oswald no Modernismo: a sua estrutura caótica, a manipulação de objetos prontos e estranhos à linguagem literária tradicional, aliada ao humor constante são também a engrenagem do Miramar e sobretudo das obras antropofágicas. A experiência desse diário ajudou Oswald a se distanciar da atmosfera simbolista e melancólica das duas peças publicados em francês (Leur âme e Mon coeur balance), em colaboração com Guilherme de Almeida dois anos antes. A atribulada vida sentimental de Oswald teve como roteiros paixões fortes e passageiras de desfechos mercantes para o escritor. Experiências pessoais que, por terem sido importantes, impregnaram sua obra. Paralela à recriação desses tipos, na Trilogia do exílio estão desenhadas a estrutura fragmentária do mundo intelectual criticado também nos dois textos de vanguarda (Míramar e Serafim) de modo mais violento. A sátira aos literatos decadentes nasceu nas trocadilhescas intervenções que zombavam da risada literária do João de Barros, do estilo bas-bleu de Cíclone e particularmente nas estocadas em direção à revista Panóplia (“a Panopliafelina”). A figura da Miss é desenhada muito vagamente. Seus companheiros falam de uma “silhueta de mistério terminando na mecha interrogativa a cair sobre os formosos olhos ingênuos”. E contribuem rnais ainda para a indefinição do seu perfil: “Ela é multiforme e variável, na sua interessante unidade de mulher moderna”.

    Perfil este gravado por Brecheret com maestria no busto (Dasys financeiras durante a década de 30, que Oswald, em dificuldade conseguiu foi obrigado a empenhá-lo na Caixa Econômica e não recuperá-lo (hoje encontra-se no acervo artístico do Palácio do Governo do Estado de São Paulo). A imagem de mulher fatal transparecia nas observações dos “gravatas” sempre reconhecendo algumas marcas premonitórias: … ,as suas áridas pupilas tenebrosas, em cujo fundo parecia velar perpetuamente urna Quimera aterradora”, “Dasy – outono fim de tarde”. A certa altura do manuscrito, suas aparições tornaram-se repentinas e escassas e, quando acontecia, passava uma visão de mundo amargurada e pessimista: “uma ansiedade má que me tortura um pouco… Sinto a premeditação que a alma tem para a desgraça. Que será que tu tenho em mim”. Sentimentos inusitados numa normalista de dezoito anos e conflitantes com a frivolidade e o vazio das discussões dos literatos. De certo modo as duas atitudes se explicam. Pelo lado da jovem, provavelmente um pouco da sua melancolia e angústia se relacionasse com a situação social familiar: em São Paulo, morando de favor na casa de parentes, dependia da mãe que, por sua vez, experimentava um segundo casamento na pacata Cravinhos. Da parte dos seus cortejadores – literatos, pequenos burgueses – quase todos casados ou comprometidos afetivamente, o estúdio da Líbero Badaró era o espaço onde poderiam estar livremente, divertindo-se longe das amarras familiares; um esconderijo do qual as respectivas famílias não tinham conhecimento.

    A “toda poderosa” Miss Tufão, com a sua “mecha fatal”, exercia um tremendo fascínio entre seus companheiros. Os visitantes da garçonnière sentiam-se atraídos pela “feminilidade esquisita” dessa jovem de forte personalidade. Sintomáticos eram seus apelidos: além de Miss Tufão, Miss Zéfiro, Miss Terremoto, Miss Furacão, Miss Puticar, Miss Cíclone. Suas reações e atitudes desconcertavam o conservadorismo comportamental desses homens, a começar pela irreverente apresentação a Oswald contada nas suas memórias. Na São Paulo belle époque, esses intelectuais tinham na cabeça modelos literários de heroínas européias: Manon Lescaut, Mimi Pinson; e vislumbravam no olhar desfalecido da normalista “esquelética e dramática” os sonhados modelos ou ainda as modernas vamps encarnadas nas telas da Paramont (Francesca Bertini, Lyda Borelli, June Caprice, etc.). “Nós todos somos como ela, a Cíclone, temos o prodígio inato de viver almas de ficção”, observava Oswald. O desenvolvimento urbano do país, o progresso da imprensa e a repercussão do cinema determinaram mudanças nos padrões de comportamento feminino. O cinema basicamente impulsionou a liberação do corpo, com reflexos diretos na moda, diminuindo a quantidade de tecido no novo vestuário; a urbanização permitiu o acesso às novas profissões, causando muita manchete de jornal a vitória de algumas mulheres no mercado de trabalho exclusivamente masculino. Por outro lado, os movimentos feministas faziam eco no Brasil. E a Miss soube muito bem aproveitar-se dessas mudanças.

    Para Dasy o contato com o pessoal do sobrado da Líbero Badaró abria a possibilidade de se informar, de conviver com gente diferente da mediocridade dos seus lentes ou dos parentes do Brás; de se abastecer de bons livros. Todavia, com uma postura altaneira desprezava as iniciativas de controle de sua vida pessoal e a sua exagerada discrição aguçava a curiosidade e enchia os seus fãs de ciúmes. Cíclone fazia coro lá fora, procuravam tornar aceitável o comportamento liberal da mulher na sociedade. Apesar de reconhecerem na Cíclone “um desenho moderno do sexo”, no fundo permanecia o desejo de controle e de posse. Até na disputa cordial e interna dos “gravatas” havia ciúmes e, consequentemente, a indignação e os protestos verbais são sentidos: “Pelo que vejo o Lobato será obrigado a batizar Miss Cíclone de Dona Joana”; “Dasy – andorinha de dois verões – inquieta edificadora de ninhos”, atacava o enciumado Miramar, ao saber da viagem da Miss para ltaporanga com João de Barros. Mas “o grande vício ligeiro , a musa gravolhe” ninguém quer perder. Suas ausências foram lamentadas, seus retornos comemorados floridamente com rosa, ciúmes e observações em tom de reprimenda: “Cíclone voltou! No grande olhar desfalecido traz a vermelhidão tracômica de velhas noites de libertinagem”.

    O perfeito cozinheiro sobreviveu praticamente um mês, depois da partida “da musa gravoche” para Cravinhos. Os parentes com quem morava ern São Paulo descobriram a sua ausência constante à Escola Normal e deram-lhe um ultimato. A certa altura do diário a Miss desabafou os motivos das suas escapulidas da Escola:

    fui à aula! Mas como envelheceram os meus pobres lentes (biconvexas)… cada vez mais chato e mais encardido fazendo uma profusa distribuição de “hinos nacionais” de sua lavra …

    É em Cravinhos que Oswald vai reencontrá-la no dia da pátria, graças a uma providencial conferência arranjada por algum amigo ligado à Liga de Defesa Nacional para ser pronunciada num lugarejo próximo; provavelmente Sarti Amado Prado que foi membro da Liga e participou do Diário. Oswald não pertencia à Liga, cujas manifestações foram motivo de chacota no Perfeito cozinheiro:

    Passou por aí a procissãozinha do Lessa, do Steidel e da Sociedade Hípica … O Paulino Piza… o Plínio Barreto. O Lobato diria que isso é que é guerra, o mais é história Os jornais amanhã vão afirmar que havia 20 000 pessoas. É mentira.

    A sessão cívica em Tijucópolis foi recriada com boa dose de humor por Oswald neste manuscrito e repetido nas Memórias – Sob as ordens de mamãe. No Perfeito cozinheiro contou a sua aventura patriótica, numa série de lances satíricos, levando o leitor forçosamente a compará-la com trechos das Memórias sentimentais de João Miramar e do Serafim. Não faltaram as cenas deliciosamente hilariantes, dignas de uma “première de Max Linder”: o Pe. João solenemente tropeçando na escada, Miramar de rabona, esperando a reação da platéia ao duvidoso témino do discurso; a confusão do nome do escritor com o famoso sanitarista Osvaldo Cruz, etc.

    O entediante exílio em Cravinhos da Miss Zéfiro terminou em fevereiro de 1919. Oswald, depois da morte do Sr. Andrade, montou na Rua Santa Madalena (Paraíso) uma casa para Dasy e a vó, onde as duas permaneceram até a morte da Cíclone, em 24 de agosto de 1919. Um casamento in extremis uniu o desesperado Oswald a sua Miss, vitimada por complicações decorrentes de um aborto mal feito. Foi sepultada no jazigo da família Andrade no cemitério da Consolação, conforme recorte de jornal colado na última página do Perfeito cozinheiro, recorte esse que arrematou essa trágica história de amor e acabou com o suspense em torno de certos nomes escondidos pelos pseudônimos. Não apenas a identidade da Miss foi revelada, mas a de todos os “gravatas” que, acompanhados de suas respectivas mulheres, enviaram flores para Maria de Lurdes Pontes de Andrade. O casamento, mesmo numa situação de desespero como aquela, apagou antigos ressentimentos e preconceitos.”
    Fonte: http://www.unicamp.br/~boaventu/page26e.htm

  8. Posted 4 agosto, 2014 at 5:34 pm | Permalink

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