Crônicas

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Artilheiros da Infantaria

por Rubem Braga

extraída do livro

 Crônicas da Guerra na Itália

 – Record, 2ª Edição, 1986.

a universalidade. Durante a Segunda Guerra Mundial atuou como de correspondente de guerra junto à F.E.B.

Rubem Braga (Cachoeiro de Itapemirim, 12 de janeiro de 1913 — Rio de Janeiro, 19 de dezembro de 1990) foi um escritor brasileiro lembrado como um dos melhores cronistas brasileiros. Iniciou-se no jornalismo profissional ainda estudante, aos 15 anos, no Correio do Sul, de Cachoeiro de Itapemirim, fazendo reportagens e assinando crônicas diárias no jornal Diário da Tarde. Formou-se bacharel pela Faculdade de Direito de Belo Horizonte em 1932, mas não exerceu a profissão. Neste mesmo ano, cobriu a Revolução Constitucionalista deflagrada em São Paulo, na qual chega a ser preso. Transferindo-se para Recife, dirigiu a página de crônicas policiais no Diário de Pernambuco. Nesta cidade, fundou o periódico Folha do Povo. Em 1936 lançou seu primeiro livro de crônicas, O Conde e o Passarinho, e fundou em São Paulo a revista Problemas, além de outras. Rubem Braga fez diversas viagens ao exterior, onde desempenhou função diplomática em Rabat, a capital do Marrocos onde foi embaixador do Brasil, nomeado por Jânio Quadros e atuou como correspon­dente de jornais brasileiros. Após seu regresso, exerceu o jornalismo em várias cidades do país, fixando domicílio no Rio de Janeiro, onde escreveu crônicas e críticas literárias para o Jornal Hoje, da Rede Globo de Televisão. Sua vida como jornalista registra a colaboração em inúmeros perió­dicos, além da participação em várias antologias, entre elas a Antologia dos Poetas Contemporâneos. Rubem Braga tinha o dom de imortalizar o cotidiano. Conseguia, de maneira inigualável, transformar um texto jornalistico em crônica. Desde que surgiu para a literatura, na década de 1930, o "Sabiá da Crônica", como o chamava Stanislaw Ponte Preta, encantou o leitor brasileiro. Retratando com limpidez o complexo cotidiano do país, Rubem Braga dava à crônica brasileira uma nova dimensão que somente os grandes escritores sabem dar: a universalidade. Durante a Segunda Guerra Mundial atuou como de correspondente de guerra junto à F.E.B.

15 de fevereiro, 1945.

 

A Infantaria tem seus artilheiros – e resolvo fazer uma pausa numa viagem de duros solavancos para visitar uma peça na encosta de um morro. No instante em que me aproximo do canhão, vejo um soldado que está ao telefone dizer para outro que está junto da peça: “Por quatro.”

Dá, em seguida, as outras indicações – o meu princípio de conversa é interrompido por quatro disparos consecutivos de obus. Durante todo o tempo de minha visita, o obus disparou – e um obus 105 tem uma voz desagradável para ser ouvida de perto, embora eu calcule que seja mais desagradável ainda para os alemães que estão do outro lado do morro.

Atrás da peça está a barraca de lona onde dormem os homens, e vou para lá. Não é, positivamente, um modelo de conforto: um corredor central com duas fileiras de camas de campanha de cada lado. Como a barraca é pequena e os moradores são em número de nove, uma cama está encostada na outra. A única iluminação é uma lamparina a gasolina, que faz muita fumaça e pouca luz. Para canalizar essa fumaça, os homens fizeram uma enorme chaminé de canudos de papelão (invólucros dos obuses). Há um aquecedor a lenha. Quando o obus dispara, lá fora sai um jato de cinza do aquecedor, e se não há bastante gasolina, a lamparina se apaga.

Por acaso, chego para visitar os homens no dia em que registram (eu ia escrever “comemoram”, mas na verdade não houve comemoração de espécie alguma) o milésimo tiro disparado por aquela peça contra os nazistas. Isso aconteceu pela manhã; no momento de minha visita, à tardinha, a conta já estava em 1.066.

O chefe da peça é o sargento Aderaldo Alcoforado de Almeida (Rua 13 de Maio, 637, João Pessoa, Paraíba) e ele ri quando eu pergunto se não é possível parar com aqueles disparos uns 15 minutos para a gente conversar melhor.

__ Atrapalha? Questão de costume, A gente aqui dorme enquanto outra turma está atirando. Às vezes, de manhã, uma pergunta aos que ficaram de serviço durante a noite: “Vocês atiraram esta noite?”

Esclarece que o regime é de 24 horas de trabalho e 24 horas de descanso para cada turma.

Esses homens são do Regimento Sampaio: sua peça pertence à companhia de obuses desse regimento de infantaria. Quando pergunto que tal a vida por ali, todos respondem que não é muito interessante, mas também não é má. “Em comparação com a do infante lá na frente, é ótima” – se apressam a dizer. O cabo Geraldo de Sousa Veiga (Rua Borborema, 122, Madureira, nascido em Recreio, Minas) explica:

__ A gente vive sossegado aqui. Os alemães atiram por esses lados, mas nunca veio nenhuma granada muito perto de nossa peça.

__ E que tal a comida?

__ É essa mesma que o senhor conhece. Vai…

Pergunto os nomes dos homens. Sou apresentado então a Arlindo Luís Vivarini, de Petrópolis. É o homem que registra a alça e o sítio, e puxa o cordãozinho que dispara a peça. Depois aperto a mão de Roldão Monteiro da Costa, de Monte Alegre, Estado do Rio. Ele é o “C-3”, quer dizer, o homem que coloca a munição, que “dá o caramelo para o tedesco”, como eles dizem. E esse caramelo, quem lhe entrega é o louro Vily Peter, de Indaiá, Santa Catarina. Anoto depois o nome de Vitírio Pfiffir, de Ipirama, Santa Catarina; e o do Ezequiel José da Silva, Alcibíades José Rodrigues e Henrique Volkmann. Este último está ali somente há duas horas. O telefonista é José Martins Sobrinho. No momento estão presentes o sargento Antônio Francisco de Souza (Rua Nove Horas, 62m Realengo) e Heitor Alves Viana, do Grupo de Comando.

O sargento me disse que o tenente que manda as ordens de tiro pelo telefone é o tenente Brasil Ramos Caiado Filho. O comandante da companhia é o capitão Antônio Carlos de Andrada Serpa – um homem alto de grandes bigodes louros.

Todos fazem questão que eu anote o nome da peça – “Carioca” – e depois me convidam para jantar. Mas o degelo tornou as estradas piores do que nunca, e como é proibido acender faróis, quero chegar ao lugar onde vou dormir antes que anoiteça. Volto à estrada, subo ao jipe – e um dos soldados me diz, na hora que o motor começa a funcionar:

__ Se vai escrever alguma coisa no Diário Carioca, manda dizer ao pessoal lá no Brasil que nós vamos bem. Não estamos fazendo vantagem nenhuma não…mas acho que estamos fazendo nosso serviço direito.

E me abana adeus com os dois pratos de alumínio que tem na mão.

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CDA: velhas novidades

 

Paulo Mendes Campos

Paulo Mendes Campos

por Paulo Mendes Campos

 

 

extraído do livro

 Os bares morrem numa quarta-feira

 – Círculo do Livro, 1980.

 

CARLOS Drummond de Andrade é econômico de gestos; a amizade de Mário de Andrade gesticulava. Contou-me este último. Conheceram-se em 1924 no Grande Hotel de Belo Horizonte. Desenrola-se uma afetuosa correspondência entre os dois poetas. Mário vai ao Rio e bate imediatamente para o Ministério da Educação; desgalha os braços ao encontrar o amigo. CDA estende a mão: “Como vai?”.

O poeta sempre morou em Copacabana: Princesa Isabel, Joaquim Nabuco, Conselheiro Lafaiete. Uma madrugada, em 1944, percorremos todo o Posto 6 e parte do 5 procurando matar ratazanas a pedradas. Não se registraram vítimas e os ratos continuaram a roer o Edifício Esplendor.

Quando me mudei para o Rio, não tinha emprego nem ferramenta. CDA, com sua solicitude silenciosa, arranjou-me dois empregos e emprestou-me uma máquina de escrever. Fui morar num quarto de um apartamento da Avenida Copacabana. A empregada era uma adolescente mulata, uma capetinha chamada Jandira. Um dia, dona Zilda, a senhoria, procurou-me, escandalizada: Jandira estava copiando num caderno barato os poemas de Drummond, veja só o senhor se tem cabimento. Um dia a capetinha foi despedida e eu verifiquei, com alegria, que surripiara o meu exemplar de A rosa do povo. Ganhei um novo exemplar com uma dedicatória: “por amor a Jandira”.

Minha geração – Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, J. Etienne Filho, Wilson Figueiredo, Carlos Castelo Branco, Murilo Rubião – falava fluentemente um idioma oarístico, colhido nos versos de Drummond. Era a maneira mais econômica, secreta e eloqüente de nos entendermos.

Conhecemos o poeta numa tarde memorável, na Avenida Afonso Pena, em BH. CDA não se lembra mais dos alinhadíssimos sapatos de camurça que usava, mas nós, os mineirinhos da época, salvamos do olvido a elegância sóbria do escritor. Este, por sua vez, espantou-se da intimidade com que tratamos duas ou três moças encontradas no caminho. Era um tremendo barato, um progresso de Minas.

Costumava procurá-lo no oitavo andar do Ministério da Educação, onde funcionava a diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. CDA trabalhava numa saleta exígua ao lado de um homem caladão, que me parecia um bom e fiel servente. Uma tarde Di Cavalcanti apresenta-me na rua ao homem caladão. Terei corado de vergonha? Era Lúcio Costa.

Quando CDA se aposentou do serviço público em 1962, escrevi para esta mesma revista uma página mostrando o funcionário exemplar que ele foi, não apenas pontual e eficiente, mas criador, tendo participado de modo decisivo de várias medidas essenciais aos negócios da cultura e da educação. Para minha surpresa, mandou-me uma carta comovida: jamais imaginara que seus serviços públicos fossem lembrados. Confesso agora que a lembrança não foi minha, mas de Justino Martins.

Participamos juntos de um júri de poesia. Contou para Manuel Bandeira, para Fausto Cunha e para mim que estava contente: tendo mudado de apartamento, pela primeira vez possuía um escritório fechado; os outros tinham sido improvisados em cantos de sala. Bandeira compreendeu logo: “Às vezes até a solicitude amorosa cansa”.

Havia sido publicado no suplemento do Correio da Manhã o poema “A morte do avião”. Eu ia para Belo Horizonte. Quando o DC-3 decolou, Otto Lara Resende passou-me o poema, querendo testar minha coragem. Fracassou: eu havia lido o jornal, antes de sair de casa. Ao nosso lado estavam Juscelino Kubitschek e José Maria Alkmin, então deputados. O poema foi passado ao primeiro, que o leu com entusiasmo. Depois JK piscou o olho e estendeu o recorte para Alkmin. Este informou-se do assunto nos primeiros versos, recusando-se a prosseguir com uma exclamação indignada: “Que brincadeira de mau gosto, gente!”

Era um bando de escritores autografando um livro coletivo numa livraria de Copacabana: CDA, Bandeira, Sabino, Braga e eu; Cecília e Diná não puderam comparecer. De repente há um movimento confuso. Uma senhora queria saber por que Drummond escrevera no seu exemplar: “A dona Fulana, cordialmente, Manuel Bandeira”. O poeta também não sabia. Pior: tinha feito a mesma coisa em outros exemplares.

Caíra o Estado Novo. CDA foi nomeado, entre outros, para transformar o DIP em Departamento Nacional de Informações. Entro no seu gabinete pela manhã e encontro o poeta desalinhado, procurando os óculos: embolara-se com um funcionário malcriado que o ofendera. E estava bem feliz com o resultado do round.

BREVE COMENTÁRIO (por Tonicato Miranda)

Emprestando uma expressão de uma amiga minha, diria “Delícia de Crônica”.

Certo, a crônica é antiga. Certo, ela é muito mais antiga do que a edição, a crônica data dos tempos de Juscelino deputado, início dos anos 50, o livro datado de 1980. Portanto, separa-nos mais de 50 anos desde a sua redação. E daí. Apesar da crônica ser tida por muitos como gênero descartável, muitas delas revelam fatos, desmascaram mitos, restabelecem por vezes, quando o autor não mente, a verdade do passado real.

Muita gente dizia que Drummond não trabalhava na repartição pública, escrevia durante o expediente, era um escritor barnabé por excelência. Paulo Mendes Campos nos diz que não. Pouca gente sabia – como eu, do humor inglês de Drummond, revelado no pequeno gesto como assinar com o nome trocado uma dedicatória de publicação coletiva. A senhora, identificada na crônica de Paulo Mendes Campos como “fulana” hoje se viva estivesse não estaria mais “fula”, dado que um exemplar desses com dedicatória trocada pode até valer muitos Reais em moedas sonantes.

Encerro este comentário dizendo que é mesmo gratificante poder ler anos depois uma crônica singela como esta, sem qualquer rebuscado formal, capaz de restaurar em mim conceitos equivocados. Mais ainda, é um prazer beber das diatribes e pequenos deslizes das pessoas que pelas obras tornaram-se quase “imortais”, mas que agiam igual a todos, pois também tropeçavam em coisas simples no dia-a-dia dos seus cotidianos.

 

 

 

2 Comments

  1. Aline
    Posted 13 maio, 2009 at 4:01 pm | Permalink

    os textos saum mto grandes…
    resumi isso daew….

  2. João
    Posted 10 março, 2011 at 10:16 am | Permalink

    Resume isso…


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