Guardar (de Antonio Cícero)

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.

Em cofre não se guarda coisa alguma.

Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por

admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por

ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,

isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro

Do que um pássaro sem vôos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,

por isso se declara e declama um poema:

Para guardá-lo:

Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:

Guarde o que quer que guarda um poema:

Por isso o lance de um poema:

Por guardar-se o que se quer guardar.

———-

Antonio Cícero

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História antiga (de Francisco Alvim)

Na época das vagas magras

redemocratizado o país

governava a Paraíba

alugava de meu bolso

em Itaipu uma casa

do Estado só um soldado

que lá ficava sentinela

um dia meio gripado

que passara todo em casa

fui dar uma volta na praia

e vi um pescador

com sua rede e jangada

mar adentro e saindo

perguntei se podia ir junto

não me reconheceu partimos

se arrependimento matasse

nunca sofri tanto

jogado naquela velhíssima

jangada

no meio de um mar

brabíssimo

voltamos agradeci

meses depois num despacho

anunciaram um pescador

já advinhando de quem

e do que se tratava

dei (do meu bolso) três contos

é para uma nova jangada

que nunca vi outra

tão velha

voltou o portador

com a seguinte notícia

o homem não quer jangada

quer um emprego público

 

 

Francisco Alvim

Germinal

Germinal

 

Planto

com emoção

este verso em teu coração.

 

Mario Quintana

(1906-1994)

TRAJETOS

TRAJETOS

 

44
O dinheiro na carteira
exponencia o uso
do poder. A utilização
da vaidade. A raiva
concentrada reúne
a oposição deixada
ao relento. O dinheiro no bolso
consome distâncias e ilusoriamente
engana a certeza do trajeto.
 
(Pedro Du Bois, inédito)

ELIZABETH MISCIASCI

Quisera Eu©

Elizabeth Misciasci

ELIZABETH MISCIASCI é Jornalista, humanista, pesquisadora, escritora, poetisa, critica literária, jurada de diversos concursos de literatura, membro ativo de grupos culturais e intelectos, voltados ás áreas de educação, arteterapia, reabilitação, inserção social e literatura.

ELIZABETH MISCIASCI é Jornalista, humanista, pesquisadora, escritora, poetisa, crítica literária, jurada de diversos concursos de literatura, membro ativo de grupos culturais e intelectos, voltados ás áreas de educação, arteterapia, reabilitação, inserção social e literatura.

Quisera eu,

Ter a sabedoria dos mestres,

Para entender o sentido

do que se faz Intangível

por conveniência e presunção,

Sendo apenas privilégio de poucos…

Quisera eu,

Ter o poder de aniquilar a desigualdade,

O preconceito,

o desancar e o abandono,

Que acompanha os miseráveis

impiedosamente desajudados.

Quisera eu,

Ter a supremacia

para exterminar a luta armada!

Recomeçando do nada,

resgatando tantas perdas

Que a memória não perdoa…

Reescrevendo a história!

Quisera eu,

Ter a perseverança do Insigne,

Que se torna altivo,

quando em desagravo não se omite,

Conscientiza e aplica!

Sendo o Mister

pra fazer e distribuir Justiça!

Enfim…

Quisera eu,

Ter o dom

da envolvente palavra que adoça e acalenta,

Sem a pugna desgastante

A desviar-me dos imorais conflitantes,

Extinguindo dores e desafetos.

Quisera eu,

Ter a perfeição da fala,

Fazendo me entender

e se estender com excelsa maestria.

E assim agir em cada linha,

Em toda frase, feito uma sublime magia

A resgatar o que se perde pela vida…

Transformando letras e versos,

Na mais pura poesia.

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Saiba mais sobre esta autora:

 

Pequena Biografia

Jornalista, humanista, pesquisadora, escritora, poetisa, crítica literária, jurada de diversos concursos de literatura, membro ativo de grupos culturais e intelectos, voltados ás áreas de educação, arteterapia, reabilitação, inserção social e literatura.
Elizabeth Misciasci foi das fundadoras do projeto zaP! Ao qual, hoje é Presidente. O zaP! É um trabalho voluntário desenvolvido nos Presídios Femininos, com as reeducandas e fora destes, com as egressas, que visa entre muitos, a não reincidência e a reinserção social, sendo uma das primeiras a implantar a Literatura nas prisões, com a elaboração de vários concuros literários, entre as sentenciadas.
Desde 1987, ela vem desenvolvendo trabalhos voluntários de pesquisas e combate á exclusão social, diretamente com a pessoa encarcerada. Nessa trajetória, permaneceu com a massa carcerária masculina (e mais precisamente na antiga Casa de Detenção) – Carandiru, onde atuou até o início de 1992, época em que passou a se dedicar aos menores infratores e ex-infratores da Febem. Já entre os anos de 1997 e 1998, com o objetivo de se aprofundar nas questões que tratavam à criminalidade feminina e todo o contexto que a englobava, escreveu em parceria a Obra Literária Presídio de Mulheres.
Sempre ressaltando a realidade da mulher na condição de pessoa presa e todas as dificuldades, que estão presentes. Assim, pela sua ótica, e com base naquelas que estão ou estiveram encarceradas, se preocupa com as condições precárias e degradantes, aos quais algumas sentenciadas são submetidas. O que constantemente, se agrava, pelo estado gravídico no cárcere e período pós-parto.
Mantenedora de vasta documentação e material tanto físico como humano, e este último, podendo ser contado por uma longa trajetória, que reuniu estudos, pesquisas, cotidiano, situações de risco, emoções, enfim, Experiências vividas na alma, e colhidas de dentro das galerias das prisões.
Elizabeth Misciasci que é Cônsul Penha Sp-Poetas Del Mundo.
Se orgulha de ter sido uma das precursoras na iniciativa de projetos literários e a arteterapia nos cárceres (como pode ser conferido por alguns ofícios recebidos e abaixo, Linkado para pequena referencia). Esta em releitura de roteiro cinematográfico e se aproxima da conclusão, finalmente de uma nova obra literária, que pretende lançar em breve.
Tem participado de vários congressos sobre o tema “Mulheres encarceradas e suas fragilidades”, onde “Pais Provisórios de filhos dos cárceres”, bem como, “Constrangimentos e plantão sujo pune e sentencia a família”, no tão esperado “dia de visita” que na seqüência, discute o “Amor bandido” e por fim “A arte de Resgatar a identidade pessoal”, “Egressa e bem sucedida”.

Algumas Obras Literárias Digitais– Em CD e Ebook (On-Line ou Não) -Editora de Conteúdo- Elizabeth Misciasci
*Amigo a Gente Ama* No meu portal pode ser baixado, e seu conteúdo, é formado apenas por nove, poemas, sonetos e mensagens, que fora editado como um carinho aos amigos e leitores. Autora- Elizabeth Misciasci
*Antologia Arquitetura Literária– Em CD e Ebook-  43 Renomados Poetas, Escritores, e Jornalistas reunidos em um único trabalho, que diversificado, apresenta diversos generos literários, bem como temas variados em uma única edição. – Participo com uma composição da Minha autoria e Fui a Idealizadora e Editora de Conteúdo.
 
*Sou Tua – Ciranda Poética, onde Dei início a temática “Sou Tua” e fui acompanhada por mais dezenove Poetas, no mesmo seguimento. Há duas composições minhas neste trabalho, porque também, sou eu que a finalizo. -Edição de Conteúdo – Elizabeth Misciasci.
 
*O Último Trem – Um mini conto (ou “um tira gosto”) de quarenta e sete páginas, que enfatiza de forma sutil a trajetória de um casal de amantes, que passa para um casamento, sendo porfim um relacionamento doentio, violento com final surpreendente. Autora – Elizabeth Misciasci
 
*Manifesto contra a Violência Exercida Sob a Mulher -Primeira Edição-Elaborada e Idealizada em Conjunto com a Escritora Portuguesa Forense Sara Rafael –Apresentação Elizabeth Misciasci – Idealização Sara Rafael e Elizabeth Misciasci.Editada- Pela editora do Portal CEN – Brasil/Portugal em 2004.
*Manifesto contra a Violência Exercida Sob a Mulher -Segunda Edição –Com participações Especiais de 42 Poetas, Escritores e Jornalistas.
-Apresentação – Elizabeth Misciasci
– Prefácio – Dr Raymundo Silveira – especialidades (Ginecologia e Obstetrícia) Escritor.
– Menção Honrosa – Gustavo Dourado
– Posfácio – Sara Rafael
Editora de Conteúdo Segunda Edição – Elizabeth Misciasci – Em CD e Ebook
 
*Coletânea Poética – Natal 2008 -56 Poetas Escritores e Jornalistas  de várias partes de mundo,  Reunidos em Poemas, Mensagens, sonetos, cordel, Tematizado o Natal, com pedidos de paZ e brados contra as desigualdades de qualquer natureza. Editora de Conteúdo – Elizabeth Misciasci
 
-Várias participações em livros impressos e Digitais. – (Prefácios e participações em Antologias e Cirandas Poéticas)
-Comunidades do Orkut – Poetas em Foco
-Fórum Amantes do Amor e da Poesia
-Poesias e Amigos de Ivan Carvalho
-Projeto zaP!

VILMA MACHADO

Sinais da Vida

 

Fotomontagem de autoria de Vilma Machado - Alemanha

Fotomontagem de autoria de Vilma Machado - Alemanha

Todos nós já fomos pegos por sentimentos como inquietação, irritação, ansiedade, tristeza, muitas vezes tentamos entendê-los, outras não demos atenção ao fato, mas, estes foram sinais que a vida nos deu justamente para percebermos que algo em nossa vida não estava bem, o que fizemos com estes sinais pode ser observado hoje no tipo de vida que temos.

 

Somos hoje o resultado de nossas escolhas, escolhas certas ou erradas, é o que somos e se envolver em mil questionamentos com lamentações ou até mesmo procurando culpados pelos resultados é pura perda de tempo, pois a cada segundo esta mesma vida continua a nos dar sinais e para entendê-los, basta observá-los.

Podemos começar a observar o que sentimos, a forma como realizamos tarefas simples, como reagimos a coisas grandes e a coisas pequenas, como estamos ao acordar, como anda nosso humor e se os sinais estiverem somente aí, com certeza estaremos com sorte, mas, se o resultado daquele exame de laboratório não foi agradável, se as idas ao médico, psicólogo, terapeuta e outros estiverem se tornando frequentes, saberemos que os sinais estão aumentando.

A vida não desiste nunca de tentar nos levar ao caminho da felicidade, nós é que não damos ouvidos a ela e o resultado vai se tornando cada vez mais complexo, muitas vezes não temos outro jeito senão aceitar o que ela nos traz e nos impõe, mas, sempre teremos a escolha sobre como interpretar e viver estes fatos, pois temos por direito a escolha entre, tirar proveito do sofrimento ou deixar que ele nos destrua.

A vida deseja ardentemente que nos tornemos felizes, assim ela nos dá a cada instante de nossa existência uma nova chance. Chance para mudarmos, para escutarmos o que ela esta tentando nos mostrar, mas, cabe a nós a decisão de escutar ou não e de escolher qual o caminho queremos trilhar.

Dar atenção aos chamados que a vida nos apresenta requer também coragem, pois não é fácil tomar a decisão de ouvir e respeitar nossas intuições, aceitar e seguir os impulsos fortes que nos chamam em determinada direção, mas, se ouvirmos nosso coração veremos que temos as indicações que apontam para nosso objetivo fundamental, que é sermos felizes.

Não haverá escolhas corretas se não formos sinceros conosco, e a questão é quão sincero se consegue ser. Encarar verdades e se confrontar são algo que nem todos conseguem fazer, mas, dure o tempo que durar chegará o dia onde teremos que encarar estas verdades e assim, razão e coração, terão que analisar e reavaliar nossas crenças, nossos comportamentos, nossas fugas, nossas limitações, nossas frustações, nossos desejos e por fim nossos sonhos.

Crescemos ouvindo o que disseram ser bom para nós, durante anos vivemos conforme as regras e padrões alheios, agimos de acordo com conceitos herdados de nossos pais, amigos, professores, ídolos e muitas vezes,  crenças falsas, cheias de preconceitos, e assim nos condicionamos a viver em busca da aceitacao, aprendemos  a agir de acordo com o comportamento mais adequado para agradarmos a um e a outro.

Acabamos acreditando, consciente ou inconscientemente, que não somos capazes de ter uma vida feliz ou o que é pior, que não a merecemos, simplesmente por que fomos ensinados a seguir um padrão pré-determinado, fortalecendo assim que a sociedade além de influenciar e de dirigir nossa vida, também determinasse nossa visão do mundo.

Quebrar este círculo requer muita força, pois quando se passa tanto tempo se escondendo da vida e de si mesmo a possibilidade de uma vida livre, plena e feliz acaba produzindo medo, o medo do desconhecido, das emoções, dos riscos, o medo de errar de novo e consequentemente o medo de sermos cobrado novamente.

A questão é que, nós mesmos nos cobramos principalmente porque temos uma idéia equivocada de vários valores que fazem parte de nossa vida, responsabilidade é uma delas, quando falamos em responsabilidades pensamos em tudo que é material e esquecemos que ser feliz e ajudar aqueles que nos cercam a encontrarem seus próprios caminhos para a felicidade são nossa maior responsabilidade.

Se não somos felizes como poderemos fazer os outros felizes? Como poderemos dar exemplos a aqueles que convivem conosco e ensiná-los a serem confiantes e seguros de si mesmos?

Não podemos dar aquilo que não temos. O que teremos a oferecer aos outros se dentro de nós só tivermos amarguras, frustrações, decepções e tristezas. O que estamos fazendo, produzindo e criando?

Se esconder de nós e do mundo traz consequências muito sérias para nós e para todos aqueles que nos cercam e isto é uma grande responsabilidade. Muitas vezes acreditamos que não devemos causar dor naqueles que amamos, mas muitas vezes a dor é necessária para que o mal seja sanado. Quando temos uma ferida na perna, para que ela possa ser tratada é necessário que o medico coloque nela alguns medicamentos que produzirão e sofrimento, mas com o tempo a ferida sara e a perna estará em condições de cumprir seu papel na vida. Assim é com aqueles que amamos, a dor causada por se confrontar com as verdades da vida, com a realidade que se encontra ali presente, trará dor mas também maturidade, formando aos poucos uma base inabalável que será levada ao longo da vida capaz de suportar todas as tempestades que possam vir.

Refomular nossas crencas, encarar nossos anseios e frustrações, olhar para nossos familiares, amigos e colegas e admitir que eles não possam ser culpados por coisas que nós nos deixamos fazer e aceitar que, assim como nós eles também precisam encontrar e enfrentar suas verdades, que eles precisam também superar suas limitações e passar pelo caminho que hoje passamos, devemos ajudá-los a ver isto sem medo da dor que será produzida pois assim como a terra precisa ser rasgada,revirada e preparada para receber a semente, nós também precisamos muitas vezes sermos rasgados e revirados em tudo que acreditamos somente assim poderemos receber a semente e deixá-la brotar.

A vida nos dá o direito de escolha e exercitar este direito não fará que sejamos menos amados, pelo contrário seremos um dia lembrado pela nossa força, pela nossa coragem e principalmente pela nossa sinceridade e respeito para conosco, para com aqueles que amamos e para com a vida.

© Vilma Machado

———————————————-

Teu amor

 

Um dia 

olhei

te encontrei

no outro

te amei

 

Dias vieram

onde sofri

sonhei

 

Um dia

acreditei

no outro

chorei

 

Hoje

na dor plantei

a esperança

no amor

que sempre

confiei

 

© Vilma Machado

DIVERSOS AUTORES

Em “Emissário de um Rei Desconhecido”, Fernando Pessoa está dividido entre o dever ao rei e o amor pelo seu povo.

 

 

Emissário de um Rei Desconhecido  

Emissário de um rei desconhecido,
Eu cumpro informes instruções de além,
E as bruscas frases que aos meus lábios vêm
Soam-me a um outro e anômalo sentido…
Inconscientemente me divido
Entre mim e a missão que o meu ser tem,
E a glória do meu Rei dá-me desdém
Por este humano povo entre quem lido…

Não sei se existe o Rei que me mandou.
Minha missão será eu a esquecer,
Meu orgulho o deserto em que em mim estou…

Mas há ! Eu sinto-me altas tradições
De antes de tempo e espaço e vida e ser…
Já viram Deus as minhas sensações…

Fernando Pessoa
(1888-1935)

O poema é obsceno, afirma o poeta. Obsceno como o salário de um trabalhador aposentado.

Poema obsceno 

Façam a festa
cantem e dancem
que eu faço o poema duro
o poema-murro
sujo
como a miséria brasileira
Não se detenham:
façam a festa
Bethânia Maninho
Clementina
Estação Primeira de Mangueira Salgueiro
gente de Vila Isabel e Madureira
todos
façam
a nossa festa
enquanto eu soco este pilão
este surdo
poema
que não toca no rádio
que o povo não cantará
(mas que nasce dele)
Não se prestará a análises estruturalistas
Não entrará nas antologias oficiais
Obsceno
como o salário de um trabalhador aposentado
o poema
terá o destino dos que habitam o lado escuro do país
– e espreitam.

Ferreira Gullar

O poeta do simbolismo teve o corpo corroído pela tuberculose e a alma tomada pela loucura. E como o acrobata, acabou por mostrar toda a sua dor.

Acrobata da Dor   

Gargalha, ri, num riso de tormenta, 
como um palhaço, que desengonçado, 
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado 
de uma ironia e de uma dor violenta. 

Da gargalhada atroz, sanguinolenta, 
agita os guizos, e convulsionado 
salta, gavroche, salta clown, varado 
pelo estertor dessa agonia lenta … 

Pedem-se bis e um bis não se despreza! 
Vamos! retesa os músculos, retesa 
nessas macabras piruetas d’aço… 

E embora caias sobre o chão, fremente, 
afogado em teu sangue estuoso e quente, 
ri! Coração, tristíssimo palhaço.

Cruz e Sousa
(1861-1898)

Me dê coragem meu Deus, me dê a coragem de me enfrentar. E perdoe o meu pecado de pensar, implora a poeta.

Meu Deus, me dê a coragem   

Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
meu pecado de pensar.

Clarice Lispector
(1920-1977)

Em seu lamento, o homem reconhece que merece a morte. Mas nos versos da poeta, ele não suporta a dor de ter o seu cavalo morto.

Lamento do Oficial Por Seu Cavalo Morto   

Nós merecemos a morte,
porque somos humanos e a guerra é feita pelas nossas mãos,
pela nossa cabeça embrulhada em séculos de sombra,
por nosso sangue estranho e instável, pelas ordens
que trazemos por dentro, e ficam sem explicação.

Criamos o fogo, a velocidade, a nova alquimia,
os cálculos do gesto,
embora sabendo que somos irmãos.
Temos até os átomos por cúmplices, e que pecados
de ciência, pelo mar, pelas nuvens, nos astros!
Que delírio sem Deus, nossa imaginação!

E aqui morreste! Oh, tua morte é a minha, que, enganada,
recebes. Não te queixas. Não pensas. Não sabes. Indigno,
ver parar, pelo meu, teu inofensivo coração.
Animal encantado – melhor que nós todos!
– que tinhas tu com este mundo
dos homens?

Aprendias a vida, plácida e pura, e entrelaçada
em carne e sonho, que os teus olhos decifravam…
Rei das planícies verdes, com rios trêmulos de relinchos…
Como vieste morrer por um que mata seus irmãos!

Cecília Meirelles
(1901-1964)

Até na poesia entre o cais e o hospital a garganta do homem está gemendo no ar. E são poucos os que se dão conta disso, como a poeta.

Poesia Entre o Cais e o Hospital  

Geme no cais o navio cargueiro
No hospital ao lado, o homem enfermo.
O vento da noite recolhe gemidos
Une angústias do mundo ermo.
Maresia transborda do mar em cansaço,
Odor de remédios inunda o espaço.
Máquina e homem, ambos exaustos
Um, pela carga que pesa em seu bojo
Outro, na dor tomando o seu corpo.
Cais, hospital: Portos de espera
E começo de fim da longa viagem.
Chaminés de cargueiros gritando no mar,
Garganta do homem em gemidos no ar.
No fundo, o universo,
O mar infinito,
O céu infinito,
O espírito infinito.
Neblinados em tristezas e medos
Surgem silêncios entre os rochedos.
Chaminés de cargueiros gritando no mar
E a garganta do homem em gemidos no ar.

Adalgisa Nery
(1905-1980)

Só os mortos sabem a resposta que os vivos não sabem. Nada mudou em essência.

Carta aos mortosAmigos, nada mudou
em essência.  

Os salários mal dão para os gastos,
as guerras não terminaram
e há vírus novos e terríveis,
embora o avanço da medicina.
Volta e meia um vizinho
tomba morto por questão de amor.
Há filmes interessantes, é verdade,
e como sempre, mulheres portentosas
nos seduzem com suas bocas e pernas,
mas em matéria de amor
não inventamos nenhuma posição nova.
Alguns cosmonautas ficam no espaço
seis meses ou mais, testando a engrenagem
e a solidão.
Em cada olimpíada há récordes previstos
e nos países, avanços e recuos sociais.
Mas nenhum pássaro mudou seu canto
com a modernidade.

Reencenamos as mesmas tragédias gregas,
relemos o Quixote, e a primavera
chega pontualmente cada ano.

Alguns hábitos, rios e florestas
se perderam.
Ninguém mais coloca cadeiras na calçada
ou toma a fresca da tarde,
mas temos máquinas velocíssimas
que nos dispensam de pensar.

Sobre o desaparecimento dos dinossauros
e a formação das galáxias
não avançamos nada.
Roupas vão e voltam com as modas.
Governos fortes caem, outros se levantam,
países se dividem
e as formigas e abelhas continuam
fiéis ao seu trabalho.

Nada mudou em essência.

Cantamos parabéns nas festas,
discutimos futebol na esquina
morremos em estúpidos desastres
e volta e meia
um de nós olha o céu quando estrelado
com o mesmo pasmo das cavernas.
E cada geração , insolente,
continua a achar
que vive no ápice da história.

Afonso Romano de Sant’ana

Um poema começado do fim pode levar até o Caminho do Céu. Será?

Poema Começado do Fim   

Um corpo quer outro corpo.
Uma alma quer outra alma e seu corpo.
Este excesso de realidade me confunde.
Jonathan falando:
parece que estou num filme.
Se eu lhe dissesse você é estúpido
ele diria sou mesmo.
Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear
eu iria.
As casas baixas, as pessoas pobres,
e o sol da tarde,
imaginai o que era o sol da tarde
sobre a nossa fragilidade.
Vinha com Jonathan
pela rua mais torta da cidade.
O Caminho do Céu.

Adélia Prado

Estas poesias foram originadas a partir deste site: http://leaoramos.blogspot.com/2006_10_01_archive.html

PEDRO DU BOIS

TRAJETOS

 

29

As vezes

em que me disse

pronto. Menti a consideração devida.

Alçado ao comando refuguei

a tropa. Descrevi lutas: enfronhado

em tiros retirei do nada a afirmação

de estar apto ao encontro.

 

As vozes ditam regras inabaláveis

e ao longe escuto a serra cortar

o lastro do meu barco.

 

Não estou pronto ao descortínio.

A visão embaça enquanto choro

impropriedades.

 

(Pedro Du Bois, inédito)

HABEMOS OBAMA! – É Possível A Esperança

HABEMOS OBAMA! – É Possível A Esperança

 

 

© DE João Batista do Lago

 

 

João Batista do Lago

João Batista do Lago

Penso que nenhum analista, até o presente momento, tenha escrito algo a respeito do tema que me vou utilizar neste artigo. Mas se houve alguém que o fez, desde logo, ficam aqui minhas escusas, pois, não tive a oportunidade e o prazer de ler o texto. Refiro-me, especificamente, ao discurso da necessidade possível.

 

Se estudarmos toda a trajetória discursiva do Presidente Barack H. Obama, em todos e quaisquer eventos, desde o instante em que ele se lançou como candidato à Presidência dos Estados Unidos até o discurso da sua posse, no último dia 20, às 15:06h, verifica-se, no núcleo dos seus pronunciamentos, a elaboração, construção e formação, ou seja, a teorização de um novo sujeito – seja do ponto de vista político, seja do ponto de vista de uma sociologia das práticas sociais: a Possibilidade possível e necessária.

Entenda-se, para este caso, que o “Sujeito” não é pura e simplesmente o indivíduo, mas “o ator social coletivo pelo qual indivíduo atinge o significado holístico em sua experiência, (…) talvez com base em uma identidade oprimida, porém expandindo-se no sentido da transformação da sociedade (…) de uma perspectiva bastante distinta, a reconciliação de todos os seres humanos como fiéis, irmãos e irmãs, de acordo com as leis de Deus, seja Alá ou Jesus, como consequência da conversação das sociedades infiéis, materialistas e contrárias aos valores da família, antes incapazes de satisfazer as necessidades humanas e os desígnios de Deus” (Munuel Castells).

Possivelmente este sujeito – Possibilidade – seja, de fato e de direito, o principal responsável pela campanha vitoriosa do Presidente Barack H. Obama. Sem ele, acredito, o senador não obteria o sucesso. Foi por intermédio dele que o presidente eleito atingiu a massa dos eleitores norte-americanos, pois estes se viram construídos, como “carnes” no corpus daquele sujeito. Ou seja, o eleitorado assumiu por definitivo que a possibilidade, da qual se referiam o candidato e o agora o Presidente, era e é uma realidade possível, isto é, uma necessidade de se transformar em real.

Desde o princípio da campanha o Presidente Barack H. Obama, insistiu na sua máxima: “Sim, nós podemos!”. Esse aforismo, ao longo da campanha deixa de ser simples enunciado para se transformar num significado de possibilidades reais. Nele está implícito, por exemplo, a conotação da possibilidade (e da necessidade) de se pensar, ou mesmo sonhar, com um possível mundo real onde se pode “forjar a paz (…) nesta nova era de responsabilidade (…) de uma nova direção baseada em interesses mútuos e respeito mútuo”.

Este pensamento elaborado do Presidente Barack H. Obama, sobre a questão do possível, outra coisa não é que “senão a repetição do argumento vitorioso de Deodoro Cronos, que reaparece toda vez que se reduz o P. a uma potencialidade, na qual devam estar presentes todas as condições de realização, estando, pois, destinada infalivelmente a realizar-se. Este é o conceito de P. encontrado em Hegel, que distinguia possibilidade real e mera possibilidade; esta seria “a vã abstração da reflexão em si”, ou seja, uma simples representação subjetiva, ao passo que se tem a possibilidade real quando ocorrem todas as condições de uma coisa, de tal maneira que a coisa deve tornar-se real; e obvio que, neste caso, possibilidade real não se distingue de necessidade. A noção de possibilidade real neste sentido e frequentemente empregada pelos seguidores de Hegel, sejam eles idealistas ou marxistas. Muitas vezes esta noção foi empregada para designar a predeterminação dos eventos históricos em suas condições, portanto para fundamentar a possibilidade de previsão infalível da evolução futura da historia. Foi deste modo que G. LUKACS usou esse conceito (Geschichte und Klassenbewusstsein, 1923; trad. fr., 1960, p. 104 ss.). Com o mesmo significado de potencialidade, esse conceito esta pressuposto num livro de S. Buchanan, em que a possibilidade é definida como “a idéia reguladora da analise do todo em suas partes”, sendo as partes definidas como “a potencialidade do todo” (Possibility, 1927, pp. 81 ss.).” – in Nicola Abbagnano.

 

* * * * *

 

DO SUJEITO POSSÍVEL

 

(poema dedicado ao

Presidente Barack H. Obama

 

© DE João Batista do Lago

 

No quadro negro da Esperança surges

Como a esperança possível e

Tão necessitada.

Não à-toa todos os olhares de todo o mundo te viram

E te admiraram, e te sonharam, e te saudaram

Como “eus” próprios construtores duma nova era.

A Paz é possível! – Disseste-o.

Pensamos todos, então:

– A Esperança recalcada pela ganância da guerra

Há-de reverter o mundo para o caminho da Paz;

A ganância do dinheiro construtor das misérias

Há-de contribuir para saciar a sede e a fome;

A ganância dos insensatos e ímpios de toda sorte

Há-de refluir para se construir um novo mundo.

 

Sim, nós podemos!

Sim, tudo é possível!

Sim, a Esperança pode vencer o medo!

Sim, a Paz é uma necessidade possível!

Sim, a miséria pode ser vencida!

Sim, o trabalho pode ser garantido!

Sim, o lucro pode ser dividido!

Sim, as guerras podem ser vencidas!

 

– Eis a mão estendida para todos vós

Ó povos de todo o mundo;

Ó povos de todas as raças;

Ó povos de todas as religiões.

Eis que vos convoco para a nova era:

A construção da Paz é possível.

 

A possibilidade do novo Homem

Não é a possibilidade do homem só.

 

Temos, enfim, a possibilidade de um mundo novo

Que nasce dum ano novo num novo janeiro;

Dum homem novo que pare no leito-carne do mundo

Sujeitos capazes de estabelecer a revolução da paz radical.

 

Temos, assim, a possibilidade de renascer!

Renascer do ventre de todas as esperanças

Antes recalcadas e inférteis e estéreis.

 

Temos, pois, o direito e o dever de um novo ente:

Ser da Esperança.

Somos a Possibilidade do Ser.

 

* * * * *

 

OF THE POSSIBLE CITIZEN

 

(dedicated poem to

President Barack H. Obama)

 

© OF João Batista do Lago

 

In the black picture of the Hope you appear

As possible hope and

So needed.

Admired all looks turn you to the whole world

They had admired you to, they had dreamed and you, they had greeted and you

As “I” proper constructors of a new age.

The Peace is possible! – You said it.

We think all, then:

– The Hope stressed for the greed of the war

Have-of reverting the world for the way of the Peace;

The greed of the construction money of the miseries

Have-of contributing to satisfy the headquarters and the hunger;

The greed of the foolish and bad of all luck

Have-of flowing back to construct a new world.

 

Yes, we can!

Yes, everything is possible!

Yes, the Hope can win the fear!

Yes, the Peace is a possible necessity!

Yes, the misery can be won!

Yes, the work can be guaranteed!

Yes, the profit can be divided!

Yes, the wars can be won!

 

– Here it is the hand extended for all you

Ó the whole world peoples;

Ó peoples of all the races;

Ó peoples of all the religions.

Here it is I convoke that you for the new age:

The construction of the Peace is possible.

 

The possibility of the new Man

It is not the possibility of the man alone.

 

We have, at last, the possibility of a new world

That it is born of one year new in a new January;

Of a new man who stops in the stream bed-meat of the world

Citizens capable to establish the revolution of the radical peace.

 

We have, thus, the possibility of to be born of new!

To be born of new of the womb of all the hopes

Before stressed and infertile and barren.

 

We have, therefore, the right and the duty of a new being:

To be of the Hope.

We are the Possibility of the Being.

VENDILHÕES DA JUSTIÇA

Vendilhões da Justiça

 

Por João Melo Bentivi

São Luis – MA

 

João Melo Bentivi 

João Melo Bentivi

Os exemplos ruins não caberiam em uma Delta Larousse. Ater-me-ei a dois!
O estado do Espírito Santo é azarado: as diabruras de suas elites ultrapassam ao meu funesto Maranhão. Há pouco, uma investigação da PF flagrou toda a cúpula do judiciário capixaba em ações impróprias.
A sociedade de lá e a desse Brasil imenso absorveu essa notícia como se fosse um fato localizado e nada mais. Aí está o maior problema: com toda cúpula da justiça corrompida, é impossível que a doença corruptiva esteja localizada somente em alguns. Sim, senhores, um desembargador corrupto não se faz da noite para o dia. Teve treinamento em corrupção durante toda uma vida e, obrigatoriamente, tem amigos, alunos, colaboradores e sucedâneos na mesma prática delitiva.
O problema é só no Espírito Santo? Nunca!!! Por esse Brasil afora se multiplicam os maus exemplos e bastaria que a Receita Federal fosse mais diligente, que encontraria não o nó da meada, mas vários novelos, cada qual com um corrupto maior. O sinal mais evidente do corrupto é uma vida incompatível com o seu nível salarial.
Servidor público, do menor barnabé ao presidente, tem salário carimbado. Entretanto, com qualquer lupa que se observa a Justiça, o que vemos é a ostentação absolutamente incompatível com o olerite. 
O segundo exemplo vem do meu maltratado Maranhão. Há poucos dias, o decano do TJ maranhense perdeu a calma e o comedimento e, em uma entrevista na Mirante AM, disse o que todos comentavam e ninguém tivera a coragem de denunciar, ou pelo menos se indignar. O resumo da entrevista é: a) a Justiça do Maranhão tem juízes corruptos; b) pelo menos dois membros da corte eleitoral negociavam sentenças de cassação de prefeitos; c) Em Itapecuru, cidade maranhense, uma das partes adentrou ao Fórum dizendo ao juiz – “devolve o meu dinheiro, ladrão, você recebeu dos dois lados”. Sobre essa cena insólita e irresponsável, contam que o procurador regional eleitoral concordou com o corrupto-enganado e instou ao corrupto-magistrado a devolver o dinheiro, que foi devolvido; d) Devido a esses fatos, o presidente da Associação Maranhense de Magistrados, em defesa de seus pupilos, em nota oficial, diz que os mesmos corruptos que existem no primeiro grau, também existem no segundo grau, como se esse empate corruptivo fizesse bem a quem quer que seja.
Somente esse relato a tudo explicaria. Não, infelizmente.
A primeira providência da Mirante AM, de propriedade do senador Sarney, foi tirar de todos os veículos a entrevista, que só não ficou perdida no éter, porque alguém teve ousadia e sensibilidade de gravar.
No dia seguinte, ouviu-se um silêncio comprometedor. Um ou outro, como o JP e o Walter Rodrigues (blogue do Colunão) ousaram romper o cerco. Do judiciário maranhense ouviu-se a voz solitária do íntegro juiz José Luis Almeida.
Como entender o porquê desse silêncio? Fácil! A urbe ignara o faz por desconhecimento, até. As elites, nunca! Nenhum comportamento é sem interesses. A corrupção da justiça existe porque beneficia as elites. Não há juiz corrupto por defender causas dos menos favorecidos! A corrupção foi e sempre será acordo de elites, em desfavor das classes trabalhadoras.
Nesse momento, o Maranhão vê a última fase desse filme maldito: afirmam que haverá uma correição e os culpados serão punidos. A vontade de rir, aliás, de chorar, é implacável. É como se nós, povo, fôssemos as galinhas e os togados as raposas. As galinhas jamais escreveriam a história!

 

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Origem desta publicação: http://www.mhariolincoln.jor.br/index.php?itemid=6534

DUAS CRÔNICAS DE DOC COMPARATO

(Rio de Janeiro, 1952) é um escritor de telenovelas, minisséries e seriados de televisão e roteirista de cinema brasileiro.  Foi um dos fundadores do Centro de Criação da Rede Globo, atuando como roteirista de séries como Mulher (1998), O tempo e o vento (1985), A justiceira (1997), e Lampião e Maria Bonita (1982), a primeira série latino-americana a receber a Medalha de Ouro do Festival de Cinema e Televisão de Nova Iorque.

(Rio de Janeiro, 1952) é um escritor de telenovelas, minisséries e seriados de televisão e roteirista de cinema brasileiro. Foi um dos fundadores do Centro de Criação da Rede Globo, atuando como roteirista de séries como Mulher (1998), O tempo e o vento (1985), A justiceira (1997), e Lampião e Maria Bonita (1982), a primeira série latino-americana a receber a Medalha de Ouro do Festival de Cinema e Televisão de Nova Iorque.

VERÃO TIJUCANO


__ QUEM FALOU que na Tijuca não tem praia?! (disse ele, tijucano doente.)

__ Eu (disse eu, sabendo que ele estava abusando da geografia).

__ Ah! Você não entende nada de Tijuca, meu velho. E a Barra da Tijuca? (disse ele apelando).

__ Espera aí, companheiro. Barra da Tijuca é outro bairro, ou não é? (disse eu, convicto de que estava conversando com um bairrista.)

__ Engano seu! A Tijuca vai do Largo da Segunda-Feira ao Recreio dos Bandeirantes (disse ele, no mínimo, megalomaníaco).

__ O quê? (disse eu, estarrecido).

__ Quer dizer, no princípio da Tijuca não é? A Tijuca cresceu tanto que foi dividida em Tijuca e Barra. Agora, no princípio, nós tínhamos mar (disse ele, na maior desfaçatez).

__ Princípio de quê, companheiro? A Tijuca nunca teve mar nenhum, só se você regredir até a era glacial! (disse eu, estupefato.)

__ Não interessa. Que seja! No princípio a Tijuca tinha mar, mas depois acabou optando pelas montanhas, chácaras, aristocracia e o verde (disse ele, delirando).

__ Verde! Onde? A Tijuca não tem mar, nem verde. A última árvore da Saenz Pena caiu no metrô. Vocês têm é cimento e sofrem fundo com o verão (disse eu, discursivo).

__ Vê lá como fala, rapaz! A Tijuca tem praças maravilhosas e clubes impecáveis, entendeu? (disse ele, me odiando).

__ “Querias”. Tinha. O América virou paliteiro do Sérgio Dourado, as praças sucumbiram metrô adentro, o Tijuca Tênis Clube ficou tão caro, que se paga mais luvas para ser sócio e sim ternos, e o Vila Isabel… (dizia eu, até ser interrompido).

__ O Vila? Vila Isabel é outro bairro. É Zona Norte! (disse ele, cheio de preconceitos).

__ Como? (disse eu, como se minha bússola tivesse enlouquecido).

__ A Tijuca não é nem Zona Sul, nem Norte. É Tijuca! (disse ele, como se morasse no Principado de Mônaco).

__ Concordo, concordo! Como concluiu o Aldir Blanc, “Tijuca não é estado-de-espírito não; é estado-de-sítio mesmo” (disse eu, com ar blasé).

__ O Aldir Blanc é tão traidor como você. Ambos foram tijucanos e agora cospem no prato que comeram (disse ele, fulminante).

__ Ninguém é traidor de nada não. Somos, sim, realistas. A gente simplesmente torce para o tijucano ficar mais carioca e menos mineiro. E que o Otto Lara Resende me desculpe! (disse eu, desabafando).

__ Você acha mesmo a gente parecido com os mineiros? (disse ele recuando).

__ Acho. Afinal de contas, aqui não tem mar, igual a Minas. E se não fosse o túnel, vocês não tinham como se refrescar no verão! (disse eu, nos finalmente).

__ O quê? A gente não é parecido com ninguém, não. Em primeiro lugar, aqui não tem Francelino nenhum; e em segundo, se não fosse o túnel a gente continuaria a se refrescar como sempre fez – à mangueira (terminou ele, bem tijucano ou mineiro).

O HOMEM QUE PERDEU O HUMOR


UMA ESTRANHA DOENÇA acometeu Sérgio durante a noite – ele perdeu o humor.

Acordou e não ouviu o passarinho cantar, não deu bom-dia para o belo dia, não futucou sua companheira e nem flutuou pelas ondas de preguiça que invadem nosso acordar. Acordou aborrecido. Por quê?

Depois deixou queimar as torradas na torradeira, tropeçou no fio do telefone, esbarrou em dois vasos, tomou café sem açúcar, deu um pontapé no gato Chuá e saiu. Deixou-se levar pela vida sem sentir. Com ódio.

No ônibus sentiu-se mal. Brigou com o trocador, empurrou uma velhinha e não captou a atividade da cidade que corria macia através dos vidros do coletivo. Não olhou para o mar, suas ondas e cores. Sem saber porque, errou em todos os relatórios pelo menos três vezes, esqueceu de bater o ponto e ainda, malfadado dia, se envolveu numa sinistra discussão com o chefe. Foi despedido.

Na tarde sol não fez. E sim chuva fina, tipo inglesa, é óbvio, Sérgio escorregou no meio-fio. Praquejou. Reclamou do azar, do movimento de do mundo. Não notou sua própria doença. E pelo tombo, passou a capengar dentro do terno rasgado.

O pôr-do-sol aconteceu em vermelho, lilás, azul e roxo. Também em tom de amarelo. Mas ele estava brigado com a natureza e assim ficou. Um arco-íris rasgou o céu antes do anoitecer.

Em casa não deu uma palavra. Descobriu que a TV estava quebrada, que tinha fígado para o jantar (ele detestava fígado) e que a cerveja estava choca. Acabou cochilando após o enjoado jantar, com uma mosca inquieta zunindo sobre sua cabeça. Teve pesadelos.

No dormir não se pensa? Mentira ou verdade? Sei lá!? Só sei que Sérgio num dormir-pensar, numa modorra zunida, achou a fonte dos seus males. Qual? Um uísque nacional, desgraçado, tragado aos litros na noite passada entre risadas e brindes numa festa de batizado. O caso de Sérgio era ressaca pura. Das brabas.

No dia seguinte Sérgio recuperou o humor, emprego e felicidade. Recuperou o amor.

MORAL A ESCOLHER – Ressaca faz mal ao humor, que faz mal ao amor, (ou) Não beba em festa de batizado que Deus do Céu castiga. (ou) Uísque nacional é fogo! (ou) O fígado faz mal à bebida (frase de Millôr).

Poemas de Eugênia Vieira

55 anos, natural da Ilha do Sal, Cabo Verde aquando aqui em Portugal o falar em liberdade dava direito a esse exilio meu pai assim o poderia dizer talvez com as lágrimas no olhar,depois regressamos a Portugal mais concretamente para a ilha de Santa Maria nos Açores, onde estudei, trabalhei, vindo mais tarde a viver na ilha de S.Miguel onde ainda hoje permaneço.

55 anos, natural da Ilha do Sal, Cabo Verde aquando aqui em Portugal o falar em liberdade dava direito a esse exílio meu pai assim o poderia dizer talvez com as lágrimas no olhar,depois regressamos a Portugal mais concretamente para a ilha de Santa Maria nos Açores, onde estudei, trabalhei, vindo mais tarde a viver na ilha de S.Miguel onde ainda hoje permaneço.

Poema de Sal

Vem como brisa do sul

Bate no rosto

Salpica-o

Rasga-lhe todos os amanheceres

Deixando sulcos

Onde a pouco e pouco

Vai nascendo

Aquela tristeza sem rumo

E no olhar sobram gotas

De um lacrimejar sem fé

Ninguém implorou santos

Nem deuses

Nem homens de barba rija e mãos calejadas

Nem tão pouco caravelas

Sulcando um pedaço de mar

Para que a história

Se fizesse só de bravos

Ninguém vestiu o nevoeiro

Com a sombra de D.Sebastião

Num incomensorável sonho

Nem tão pouco abraçou África

Goa,Macau ou Timor

E já agora Guiné ou Cabo verde

Deixando nos braços

A terra de um outrora.

Ninguém pediu um pedaço de pólvora

Porque a carne tisna

E á alma chega apenas o odor

De quem tombou antes que a hora

Se saldasse entre o ser e o parecer

Ninguém pediu este pedaço estreito

Sarcásticamente lançado

Na avidez do tempo

Qual coroa de glória

Exibida no auge

E soa-nos um tempo emagrecido

Batendo-nos no peito mais uma tormenta!

Ó Deus da Hironia

Santos desta volúpia

Escutai!

Discursos breves,metódicamente pensados

Parragonas em jornais

E a palavra bate e rebate

Como o fogo

É a crise!

Diz este povo

Que se benze ao amanhecer

E vai orando á Senhora de Fátima

Um naco de pão!

E a fé cresce!

E o pão benze-se

Com as mãos presas

Na amentolia da esperança

E tudo é tão rápido

Que a memória esquece

O passado no presente

Mas!

Homens!Bem falantes

Politicos, estudiosos

Homens da ciência

Que fizestes a este povo

Que ao olhar ascende

O desespero!

E na boca nem surge esse silêncio

De pérolas negras

Nada!

Nem mar por navegar

Nem sonho por desvendar

Nem sorriso mesmo que desconfiado

Nem um punhado de trigo

Nem um horizonte

Vestido com o rigor de quem não desistiu

De viver

Mesmo em tempo magro

Que fizestes?

Nada!

Nem fado,chorando a alma

Nem prosa ao anoitecer

Nem o mel da palavra

Aquietando o espírito

Apenas este frio que tange

E refreia o olhar

Deixando para a memória do futuro
Este poema de sal

Escrito por um punho

Que VIVE

Mesmo que lhe imponham

A mentira que vos veste.

E

A jeito de ladainha

Neste orar compadecido

Recordai

A justiça da palavra

Porque a crise

Sois vós

Homens bem Falantes!

É…………

Tingiram os novelos de orvalho
Com a cinza queimada
O sol encolheu-se entre as estrelas
Chorando a sina sem destino

É a cegueira rasgando o olhar
Enquando o veludo das sombras
Vão trauteando sons
Que ao pensamento
Parecem esta névoa avermelhada
Que alimenta o dia

É assim,aqui e agora
Nesta sumida aldeia
Onde ninguém semeia
Mas colhem palmas desertas

É o estoiro do canhão
A bomba que estilhaça
O sangue que escorre sobre a vida

O discurso alvoraçado
Que mente a paz
É a euforia que corta
As veias do pensamento
É o descer de asas
A um inferno sem portas
É o grito que escorre
Sobre a bandeira rasgada
É este tomar nas mãos
Uma dúzia de palavras
E soltá-las
Ao quebrar de mais uma noite
Envolta em silêncios plasmados
Num céu grávido

É………..
Tudo isto
E tudo o resto
Que poisa dolorosamente
Nas asas do tempo.

O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo…

avant-premiere

PEDRO DU BOIS – Contrários

CONTRÁRIOS

 

Ao contrário do que meus inimigos

calam

sobre mim

 

torno público

o espúrio plano

de me fazerem esquecido

em deslembranças: refletir no espelho

o rosto acontecido.

 

Cito de memória histórias universalizadas

e desdigo cada silêncio em amaciares

e denúncias: sou o esqueleto posto

em arames ao pé da escada.

 

(Pedro Du Bois, inédito)

 

meu blog:

VILMA MACHADO (dois poemas – direto da Alemanha)

Tempo e vida

 

Vilma Machado (Nordring, 25, 46354 - Südlohn – Alemanha), Poetisa, escritora, fotógrafa, educadora.

Vilma Machado (Alemanha), Poetisa, escritora, fotógrafa, educadora.

Corro contra o tempo

que näo para de chegar

ontem foi agora

agora foi

virou mais nada

 

corro com a vida

que passa assim

näo devagar

ontem fui crianca

hoje sou

amanha serei mais nada

 

brinco com a vida

achando que o tempo

näo é nada

amanhä me mostra a vida

que nao há tempo

para mais nada

 

© vilma machado

 

 

Para Voar

 

Não há ponte

só abismos

não há

como atravessar

só voando

pode a alma

no outro lado

chegar

não há ponte

só abismos

para quem não sabe olhar

que a alma só precisa

do amor

para voar

 

 

 

© vilma machado